Sabrina Noivas 91 
 The Bride,The Trucker And The Great Escape

Noiva a bordo! Diante da igreja, Andra Conroy j no tinha mais certeza de que queria realmente se casar com o homem que a esperava no altar. Mas, com 1 igreja lotada de impacientes convidados, ela precisava de 1 jeito rpido de escapar, e o caminhoneiro Ray Armstrong estava no lugar certo e na hora certa... Entrando no caminho, a noiva fugitiva ordenou que ele dirigisse. Ray nunca tinha se imaginado um cavaleiro salvando 1 donzela. E era isso que Andra esperava dele! Mas quais as conseqncias que aquele ato impensado iria trazer? Ray nem imaginava a surpresa que o destino lhe reservava!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1998.  Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo

 

CAPITULO I

EIa precisava escapar! 
Andra Conroy, em seu vestido de noiva em renda e cetim, de cauda longa e grinalda principesca, foi at a porta do quarto de vestir, abriu-a e olhou para fora. O vestbulo estava vazio.
Atenta, ouviu som de vozes vindo da igreja. Tinha de se apressar.
Logo estariam de volta para verificar se j estava pronta, certificando-se de que poderiam prosseguir com o que pelo menos um dos colunistas sociais de Washington chamava de o casamento do ano.
Sua pulsao se acelerava, e Andra tentava conter o pranto. O "casamento do ano" era uma vergonha. Uma horrvel e dolorosa vergonha.
Mas no tinha tempo para chorar agora. Engoliu em seco e passou os dedos pelo rosto, para secar as lgrimas.
No havia possibilidade de ir adiante com esse plano que seu pai, dominador, havia arranjado. O noivo era Phillip Mas-terson, um bem-sucedido advogado da capital. No queria acabar como sua me, nada mais que uma figura decorativa para acompanhar o marido a festas e jantares importantes.
Um rudo a fez se voltar e fechar a porta de novo. Encostou nela o ouvido.
	Andra querida, posso entrar?
	No, mame!  Percebeu que sua voz mostrara o pavor que sentia e tentou corrigir o erro.  Quero dizer, agora no. Preciso de alguns momentos sozinha.
"Alguns momentos para fugir, isso sim!"
	Voc est bem, Andra?
	Claro...
Lillian Conroy gostava que as coisas transcorressem de acordo com o planejado, ou seja, como William Conroy IV queria que acontecesse.
Olhou para o caro relgio de pulso. Deveria estar na cerimnia em dez minutos!
Por favor, d-me apenas alguns instantes, me.
Os nervos de Andra estavam  flor da pele. Por que deixara as coisas chegarem quele ponto?
Sabia muito bem a resposta para essa pergunta. Ningum dizia "no" a William Conroy. E ningum sabia disso melhor que Andra.
Tentara se conformar. Tentara estudar Direito para agrad-lo, quando o que queria era ensinar artes a crianas. Esforara-se por ser um modelo de filha, cumpridora de seus deveres...
Fechou os olhos, a emoo tomando conta de seus sentidos. Sempre quisera que seu pai a amasse.
Meneou a cabea e olhou-se no espelho.
Sim, tentara e ainda estava tentando. Mas agora o que era exigido dela ultrapassara os limites. No podia casar-se com Philip Masterson! Ali, na igreja, vestida de noiva, a realidade do que estava para acontecer a atingira em cheio e a deixara apavorada.
Cada clula de seu corpo alto e esguio clamava contra aquele despropsito. No amava Phillip, nem era amada por ele. O que Phillip queria era o poder e a posio de seu pai.
Voc tem certeza, querida?  a me tornou a perguntar, preocupada.
Andra quase se descontrolou e comeou a gritar.
Imaginou Lillian sentada na fileira em frente do altar, com centenas de convidados atrs dela, esperando pela linda filha que deveria percorrer, deslumbrante, todo o corredor ricamente decorado.
Sabe quantos amigos e colegas de seu pai esto aqui, Andra. So pessoas muito importantes, no deve faz-los esperar.
Andra deu um profundo suspiro.  claro que a me no estava preocupada com ela, e sim com a inconvenincia de desagradar s importantes ligaes que o pai tinha com a sociedade.
	Estou bem, mame, j disse.
	Certo, meu bem. Vou me sentar. Seu pai estar aqui em cinco minutos. A prxima vez que eu a vir, voc ser a sra. Phillip Masterson!
Silncio.
Com as mos trmulas, Andra tirou o ostensivo anel de noivado com o qual Phillip havia lhe presenteado e o colocou sobre a penteadeira.
Girou a maaneta, O vestbulo estava vazio outra vez. Tomada pelo nervosismo e pelo medo, mal conseguia respirar. Umedeceu os lbios.
Agora! Tinha de ser agora!
Rpida, deu um passo para fora. Tomou conscincia de que em poucos minutos perceberiam que ela desaparecera.
Ouviu a voz de Wiliiam.
Andra correu na direo contrria de onde se encontrava o pai. No final do vestbulo havia ma passagem que dava para o exterior. No havia ningum.
Ningum a vira se afastar!
Com o corao disparado, ofegante e apavorada, Andra saiu da enorme igreja do centro da cidade, para o calor da tarde de junho e... para a liberdade!
O gramado que cercava a construo possua altas rvores, e os carros tinham sido estacionados ao lado da igreja. Para seu desespero, no possua a chave de nenhum deles, pois os pais e Andra foram para l de limusine.
Como conseguiria escapar? O que estivera pensando?
Mais alguns minutos e perceberiam seu desaparecimento. Viriam procur-la e... Wiliiam ficaria furioso.
Outra das tolas escapadas de Andra!
Olhou ao redor, procurando uma alternativa.
O trnsito de sbado  tarde era leve, composto mais de pessoas fazendo compras e de turistas, que subiam e desciam a larga avenida. Enquanto olhava, avistou um grande caminho parar na frente do estacionamento.
Um homem vestido de jeans e camiseta desceu da cabine acompanhado por um cachorro preto e foi em direo a uma das rvores para que o co ali fizesse suas necessidades.
Apavorada, Andra continuava a olhar em volta para concretizar sua fuga, quando viu um txi se aproximar. Era um presente de Deus.
Saiu do gramado em direo da rua, o vu e o vestido esvoaando e ela ignorando o olhar que o rapaz do caminho lhe endereava. O cachorro latiu e comeou a persegui-la, mas recuou ao chamado do dono.
O txi se aproximava, Andra passou entre dois automveis estacionados e parou, j na rua.
 Txi!  gritou, estendendo o brao.
No tinha ideia de para onde ir. Mas tambm no se importava. Apenas queria se afastar dali, de Phillip Mas-terson e de William Conroy, o mais longe possvel.
Mas o txi no parou.
Andra ficou hirta, morta de medo e de ansiedade, as lgrimas lavando seu rosto, sem saber o que fazer.
Um carro esporte preto apareceu de repente diante dela, surgindo no se sabe de onde, em alta velocidade, vindo em sua direo. Andra ficou paralisada e em choque enquanto o veculo se aproximava.
Gritou.
Ray Armstrong viu a mulher aterrorizada, com o automvel aproximando-se dela, e a adrenalina percorreu-lhe o corpo.
Correu at ela, passou o brao ao redor da delgada cintura e a tirou do caminho do carro. Andra sentiu-se leve como uma flor.
Os dois caram sobre o caminho pavimentado entre dois carros estacionados, o corpo dela sobre ele.
O veculo passou como uma bala. 
Rex, seu co, de raa no definida, latia excitado.
Ray ficou quieto por alguns segundos, tonto pelo impacto. No costumava dirigir seus prprios caminhes. Passava a maior parte do tempo com operaes do dia-a-dia na Companhia Independente de Caminhes Armstrong, empresa que iniciara em sociedade com seu irmo, um ano atrs. Mas, com um dos motoristas afastado do servio devido a um problema familiar e a esposa do irmo prestes a dar  luz seu primeiro beb, Ray no teve escolha a no ser enfrentar a situao.
Aquele era o primeiro dia de uma viagem de dez, primeiro a Los Angeles, depois San Diego, e em seguida de volta  costa leste dos Estados Unidos. Depois de duas milhas, Rex comeara a arranhar a porta da cabine, numa atitude muito clara. E ento, aquela mulher vestida de noiva surgira do nada, correndo em direo  rua.
Andra mexeu-se, e Ray ficou de joelhos, olhando, admirado, para ela, encontrando seus olhos escuros cheios de pavor.
	Voc est bem?  ela murmurou.
Sua voz era suave e musical. Parecia a de um anjo, embora os pensamentos que lhe inspirava no fossem to puros assim. Na realidade, inspiravam sentimentos opostos.
Ray piscou, engoliu em seco, piscou de novo.
Mechas dos cabelos escuros e cacheados escapavam da grinalda, emoldurando o rosto oval de pele muito clara, cheia de sardas. O nariz era delicado, e os lbios, vermelhos, cheios e bem desenhados. Brincos de brilhante enfeitavam as orelhas pequenas, e o pescoo fino terminava num colo bonito e atraente acima do corpo de renda e cetim do traje.
Por um segundo sem fala, Ray percebeu que no poderia estar ferido.
	Voc salvou minha vida!
Ray continuava a olhar para Andra, com vontade de beijar aquela bdca sensual naquele exato momento.
	Est ferido?
	No, no, estou bem... Apenas um pouco confuso.
Ray sentou-se, certificando-se de que tudo estava em ordem, a no ser suas emoes. No se lembrava de ter batido a cabea, mas devia ter acontecido. Afinal, o que mais justificaria esses pensamentos irracionais?
E voc? Quase foi atropelada. Por que no saiu do caminho?
Rex continuava latindo e dando voltas em torno dos dois.
Andra encarou Ray.
	Eu queria ter sido atropelada  respondeu com sarcasmo.
Ray arregalou os olhos e ergueu-se.
	Desculpe-me por ter me intrometido em seu caminho Andra se arrependeu e sentiu-se culpada.
	Eu  que peo perdo. Voc no merece.  Mordeu o lbio.  Obrigada por ter me tirado do caminho do carro.
Acho que no consegui me mover quando o vi se aproximando. Tem certeza de que no se machucou?
Ray tinha cabelos castanhos, era de estatura mdia e forte, e, como Andra estava usando saltos bem altos, no precisava erguer muito a cabea para encontrar os olhos dele. Com um rpido olhar, observou a camiseta branca que lhe marcava o peito forte, a cintura delgada e as pernas compridas vestidas com uma cala jeans bem usada. Mas o que despertou seu interesse foram os olhos dele, castanho-claros, com reflexos esverdeados, que a fizeram sentir-se muito vulnervel,
	Estou apenas um pouco dolorido,  tudo.  Ray franziu as sobrancelhas.  E quanto a voc? Estava correndo no meio do trnsito vestida de noiva. Meteu-se em apuros?
	No.  De sbito, lembrou-se do motivo de estar na quela situao. O quase acidente a tinha distrado.
Phillip, seu pai, o casamento. Olhou para a igreja. 
	Voc sempre anda pela rua assim?
	O qu?
O problema persistia, e os cinco minutos j tinham se esgotado.
Um movimento na frente da igreja chamou-lhe a ateno. Era seu pai! E Phillip!
	Oh, no!  Andra se abaixou no meio de dois automveis.
Mais  frente estava o caminho. Depois de um instante de hesitao, foi at l, subiu na cabine, recolheu a cauda do vestido e ficou abaixada no banco do passageiro, empurrando para o cho um pilha bem-arrumada de jornais e uma prancheta de anotaes que se encontravam no banco que pretendia ocupar.
Ray a seguiu, entrou tambm, e Rex se acomodou entre os dois, latindo para Andra. Ray fechou a porta com uma batida seca.
	Voc pode me dizer o que est acontecendo?  Pegou a prancheta do cho, mas deixou os jornais onde estavam.
Andra se abaixava cada vez mais ao avistar Phillip e o pai. Mais convidados saam e percorriam os jardins. A busca comeara!
Andra olhou para Rex, que rosnava, inquieto. No sabia quem estava mais irrequieto e assustado: Phillip, seu pai ou o cachorro.
	D partida no caminho  pediu, desesperada.
- O qu?!
	Vamos embora!
	No enquanto no me disser o que acontece. Est fugindo de algum?  Ray olhava para ela, vendo seu desespero aumentar conforme arregalava os olhos ao ver as pessoas se espalhando nas redondezas para tentar encontr-la.
	Sim, estou!
No era necessrio ser perspicaz para perceber que aquelas pessoas a procuravam, que ela fugia vestida de noiva, sem dvida nenhuma arrasando o corao de algum.
	Quem e por qu?  Ray insistiu.
	Voc vai fazer perguntas ou dirigir essa droga de caminho?!
Ray arqueou as sobrancelhas. Rex rosnou outra vez.
	Desculpe-me. Estou sendo rude. Mas  que estou desesperada. Por favor, me tire daqui antes que me encontrem!
Aquela splica lhe chegou direio ao corao, e Ray ficou enraivecido, pois ela acabara de abandonar algum prestes a subir no altar. No podia sentir pena dela, e no queria ajud-la. 
Mas salvara sua vida, e isso o fazia sentir-se responsvel por ela, gostando ou no. Mas no apreciava essa situao... nenhum um pouco.
Irritado com a posio em que se encontrava e com raiva dela por t-lo posto nessa enrascada, olhou no espelho retrovisor e saiu do meio-fio em direo da avenida.
Nenhum dos dois falou durante vrios minutos. Ento, Andra ergueu-se e olhou para a igreja, que ia se distanciando. Virou a cabea e alisou a roupa.
Ray no entendia de moda, mas apostava que aquele vestido era um modelo original de algum figurinista famoso, e que custara um verdadeira fortuna.
	Qual  seu nome?  Se tinha de fazer alguma coisa para salv-la, precisava saber pelo menos como se chamava.
Andra olhou para Ray e, em vez de responder, lhe devolveu a pergunta:
	Qual  o seu?
No podia acreditar que ela fosse dificultar as coisas quando estavam no meio da operao salvamento.
Andra ainda alisava o traje, e ele pde perceber que as mos dela tremiam.
Estaria com medo dele? Esse pensamento o incomodou. No ia machuc-la. S queria que descesse de seu caminho. Mas decidiu no perder tempo com discusses.
	Ray Armstrong.  Parou o veculo diante do semforo vermelho.  E o seu?
Andra mordia o lbio, ponderando se era seguro at mesmo partilhar seu nome com aquele desconhecido.
Percebeu seu olhar castanho-esverdeado, que no chegava a ser cruel, mas era duro. Aquele homem era um total estranho, mas sentia, de alguma maneira, que no oferecia perigo.
Andra estava cansada de ser magoada, de no ser amada por si mesma. De agora em diante, iria manter distncia das pessoas. Se no esperasse amor de ningum, no se decepcionaria mais.
Mas havia uma coisa que precisava nesse momento: ser ievada para algum lugar. E tudo o que Ray lhe perguntara fora seu nome. Isso ela poderia lhe falar.
	Andra.
	Andra do qu?
Ela cruzou os braos sobre o peito.
	Apenas Andra.
Estava farta de todos ficarem impressionados quando descobriam quem era seu pai.
O semforo ficou verde, e Ray passou a prestar ateno.
	Bem, Apenas Andra, para onde devo lev-la?
Andra pesava as opes. Aonde poderia ir sem que sua famlia ficasse sabendo e a resgatasse em pouco tempo? No queria v-los. Nem a Phillip, nem a ningum. Precisava refletir afastada de todos eles.
Necessitava de tempo para tomar coragem e decidir o que iria fazer com o resto de sua vida.
Olhou para Ray, uma ideia tomando forma e crescendo. No queria estar ao lado dele, e era claro que ele tambm no. Mas, apesar disso, sabia de um lugar onde ningum a encontraria...
	Para onde vai, Ray?
	Califrnia.
	Quero ir com voc.

CAPTULO II

	O qu?!  Ray brecou o caminho.  O que disse?
Quero ir com voc  Andra repetiu, com timidez.
Ray no pareceu nada animado com a ideia, e devia achar
que ela estava louca, pois no era comum pegar uma carona com um estranho, vestida de noiva, e ir para outra cidade.
Pensou ento no casamento com Phillip e decidiu que isso, sim, seria rematada loucura. Se sua famlia quisesse que fosse feliz, acabaria por compreender a atitude que tomara.
Precisava de algum tempo longe deles, e Ray Armstrong poderia dar-lhe isso.
Alm do mais, Ray no era completamente um estranho, dizia para si mesma. No tinha salvado sua vida?
- No ficarei em seu caminho.  Andra o encarou.
Ray continuava a olhar para ela, estupefato, como se Andra fosse um ser vindo de outro planeta.
	E claro que ficar. J est nele. Voc no pode ir comigo.
	Por que no?
Andra fitou-o com aqueles expressivos olhos escuros, e Ray sentiu como se uma parte do seu corpo comeasse a derreter.
Porque estou a servio, e no a passeio.
No podia deixar-se influenciar pelos encantos daquela mulher, que acabara de conhecer em circunstncias extraordinrias.
Na ltima vez que se envolvera se arrependera e, agora que seu irmo estava mais preocupado em aumentar a famlia, pareceu-lhe uma boa ideia se dedicar apenas aos negcios.
	No tenho tempo para passageiros, Andra.
	No lhe causarei problemas... e lhe farei companhia.
	Sorriu para tentar convenc-lo.
	No preciso disso.
	Deve ser muito triste andar por essas estradas sozinho. Pode ir, o farol est verde.
Ray pisou no acelerador. O caminho gemeu e sacolejou quando ele mudou a marcha.
J tenho companhia. Tenho Rex.
O co ergueu a cabea ao ouvir seu nome.
	Um cachorro?
	. No preciso de mais ningum.
Pelo menos sabia como lidar com Rex. Ele era fiel e dcil, ao contrrio de algumas mulheres.
Agora, diga-me onde devo deix-la, Andra. Preciso pegar a estrada, tenho um horrio a cumprir.
Depois de um ltimo semforo, virou  direita, deixando para trs o congestionamento da cidade, em direo de uma auto-estrada.
Andra mordeu o lbio. E agora? Ray estava pronto para expuls-la.
O que poderia fazer? Para onde ir?
Distrada em seus pensamentos, ergueu a mo e tocou a cabea do animal, que se ergueu e latiu como se fosse mord-la. Era s o que precisava para completar o dia: ser mordida por um co.
	Rex!  Ray ralhou com o animal, que se aquietou.
	Ele no gosta de mulheres.
	Obrigada por ter me salvado de novo... agora da mordida de Rex.  E se encolheu no canto da cabine.
Ray deu uma olhada rpida e saiu para o acostamento, estacionando.
	Olhe, voc deixou um pobre coitado no altar...
	Um pobre coitado?
	...e se enfiou aqui no caminho sem ser convidada. Acaba de fugir do sujeito, deixou-o plantado na igreja!
	Voc no entende a situao, pois do contrrio no sentiria pena dele. Sou eu que...
	E voc qu?
	Nada. No importa.  Cruzou os braos e olhou para a frente.
	Est certo. Vamos comear de novo. Diga o que est acontecendo, e verei se posso ajud-la.  Para ele, ajudar significava livrar-se dela, mas essa parte Ray omitiu.
	Eu... posso explicar.
	Se quer ir para a Califrnia comigo,  bom comear, moa.
	Eu devia me casar hoje.
	No me diga!  Ray ergueu as sobrancelhas.  E o que aconteceu?
	Mudei de ideia.
	Verdade?
	Sim, .
	Ento chegou a essa brilhante concluso no momento em que estava caminhando para o altar?
	No,  claro que no! No cheguei a esse ponto!
	Oh, obrigado, meu Deus!  Ray sorriu.  O noivo deve estar muito aliviado por isso.
Andra no queria entrar em detalhes, nem responder a certas perguntas.
E muito complicado, Ray.
Olhou mais uma vez em direo da estrada tentando convenc-lo, pela linguagem corporal, que a conversao estava terminada.
Mas Ray no entendeu, porque continuou inquirndo-a:
	Estou ouvindo. Quem sabe consigo entender?
	Preciso de algum tempo para pensar, Ray.  Suspirou.
 Tenho de me afastar de todos e de tudo,  apenas isso.
	Mas deve haver algum, em algum lugar, para onde voc possa ir sem meu caminho. Deixe-me lev-la.
	No! Olhe, eu preciso fugir. Se no me levar junto...
	O qu? O que vai fazer se eu no lev-la comigo?
	Arranjarei outra pessoa para ajudar-me.  Ergueu o queixo.  Tenho certeza de que algum me socorrer.
A ideia de pegar outra carona a aterrorizava. Sabia que no seria capaz de fazer isso.
Mas a questo era: ser que o homem a seu lado acreditaria que ela o faria?
A garganta de Ray se apertou. Imaginou a linda Andra parada na beira da estrada, vestida de noiva e com o polegar erguido.
E algum estranho parando e pegando-a. Poderia acabar sendo atacada, ou at coisa pior.
Ray engatou a marcha do caminho e voltou para a estrada, praguejando. Rex latiu, sentindo o mau humor do dono.
Fitou Andra, encolhida no canto como se estivesse sendo acuada, e pisou no acelerador em direo ao oeste do pas.
O crepsculo era muito bonito, e a estrada no estava muito cheia, por ser um final de semana.
Ray se atrasara e se irritara. Rex parecia impaciente, e tinha como passageira um mulher bonita e sexy, vestida de noiva, que no lhe dissera nem mesmo seu sobrenome. Por Deus, em que enrascada se metera?
Ia ser uma viagem muito longa.
Diga-me uma coisa, Andra, voc fez alguma coisa errada, cometeu algum crime, ou algo parecido?
Deveria considerar todas as possibilidades, pois no era muito comum uma noiva fugir no caminho de um desconhecido.
	No! No infringi nenhuma lei, posso lhe assegurar.
	Ningum vai procur-la? No serei preso acusado de sequestro ou coisa parecida, vou?
E se a famlia dela entrasse em pnico com seu desaparecimento? E se Ray viesse a ser perseguido como seqiies-trador? Em que problema tinha se envolvido?
	No... Bem, no sei o que eles poderiam fazer. Fique com meus brincos como garantia de minhas despesas, que pagarei assim que for possvel.
	O que quer dizer com "no sei como eles iro reagir"?
 Ray insistiu, imaginando-se perseguido pela polcia e pelo pai da noiva, alucinado,  procura da filha raptada.
	Acho que chamariam a polcia.
	Otimo! De quem se trata?
	Minha famlia e meu noivo.  Andra se encolheu ainda mais.   claro que tambm h a possibilidade de no fazerem nada.
	 mesmo? E voc acha que essa possibilidade  grande?
	Penso que no.  Engoliu em seco.
A despeito de todos os problemas que tinha com os pais, ndra acreditava que eles no descansariam at encontr-la, ainda mais se achassem que tinha sido raptada. Ao pensar nessa hiptese, teve um sentimento de culpa. S queria se afastar, nunca pretendeu fazer alguma coisa que os preocupasse.
Ray a olhou com irritao.
	Maravilhoso! Ento vamos recapitular, est bem? Meu caminho estava estacionado em frente da igreja quando voc desapareceu. E com todas aquelas pessoas saindo de l, quais so as chances de que ningum tenha percebido alguma coisa estranha e anotado a placa do veculo?
Andra empalideceu. Ele tinha razo. Se seus pais pensassem que fora sequestrada, se contratassem um detetive particular ou contatassem a polcia, havia pouca probabilidade de no localizarem o vecuio de Ray.
	Talvez seja melhor eu telefonar. No quero trazer ne
nhum tipo de problema para voc, Ray.
O rosto dele tinha uma expresso de incredulidade, mas Andra a ignorou.
	E tambm no pretendo causar preocupaes desne
cessrias a minha famlia.
	Isso  muito bom. Vai ser minha terceira parada, e no andei nem trinta milhas, mas no se preocupe. Para tudo d-se um jeito.
Andra tinha medo de dizer qualquer coisa que o fizesse mudar de ideia.
	Ligue para quem quiser e diga que se evadiu por vontade prpria. No quero ningum atrs de voc para me fazer perder ainda mais tempo do que j perdi. Tenho horrio a cumprir.
Andra concordou com um gesto de cabea, aliviada com as palavras dele.
Ray a deixaria prosseguir a viagem!
Durante as milhas seguintes, ningum falou nada, e s o que se ouvia era o ronco do motor.
Obrigada por deixar-me ir com voc, Ray.
Ele resmungou. O sorriso de Andra o fez sentir-se terno, e odiava isso.	x
No me agradea ainda, Andra. Uma viagem desse porte no  como fazer um piquenique.
Virou  direita e entrou num estacionamento lotado de outros caminhes. Os brincos de brilhante rolaram e, com a curva, caram ao cho.
Andra se curvou e os apanhou.
	Pegue, por favor, Ray. Preciso que fique com estes brincos.
	No quero suas jias.
	E eu no quero caridade. Quando pagar minhas despesas voc os devolver. Negcio fechado?
Ray ergueu os ombros e estendeu a palma da mo, onde Andra ps o par.
Ele abriu a porta da cabina e pulou para o cho, sendo seguido por Rex, que foi em seguida preso  carroceria do caminho pela corrente da coleira.
Andra tirou a grinalda e o vu, que comeara a dar-lhe coceiras, colocou-os no banco e girou o trinco. Pela primeira, vez percebeu como estavam altos em relao ao solo. Quando subira na cabine estava em tal estado de pnico que nem havia notado.
Ray apareceu embaixo, no asfalto, e hesitou um momento antes de estender o brao para ajud-la a descer.
Ela deu-lhe a mo e sentiu a presso dos dedos fortes e quentes. Pulou, segurando a longa cauda do vestido com a outra mo. Quando se sentiu segura, em terra firme, Ray a soltou, e Andra ficou um pouco desapontada, como se uma parte dela no quisesse se separar dele.
Ray indicou um telefone com um gesto de cabea.
	V, Andra.
	Eu... no tenho nenhum dinheiro.
Ray enfiou a mo no bolso e tirou uma moeda. Andra pegou-a e se dirigiu ao aparelho, sendo observada por ele.
Andra discou o nmero da casa dos pais em Silver Spring, Maryland, um subrbio de Washington.
Gretchen?  perguntou quando a empregada atendeu.
Gretchen comeou a balbuciar. William e Lillian j haviam telefonado para saber se a filha fizera algum contato. Queriam encontr-la, falar com ela e faz-la voltar para a igreja. O pai estava furioso, e a me, humilhada. E quanto a seus colegas, amigos, colunistas sociais, Phillip?
Andra afastou o telefone alguns centmetros do ouvido, enquanto Gretchen falava, excitada. Percebeu que ningum tinha se preocupado com ela. Pelo visto, no pensaram na possibilidade de sequestro.
Lgrimas corriam por seu rosto.
	Gretchen, oua! No vou voltar para casa hoje e no vou voltar para a igreja! Preciso de algum tempo para pensar. Diga a meus pais que estou bem e que sinto muito, mas no posso...  Olhou para Ray, que estava de costas, olhando para a estrada, mas sentia que ao mesmo tempo prestava ateno ao que ela dizia. Deu-lhe as costas e sussurrou:  No posso me casar com Phillip. No o amo. Voltarei em...
	Dez dias  Ray interveio.
	Voltarei daqui a dez dias.  E desligou.
Nesse momento, pareceu que as foras a abandonaram, e o pranto correu livre por seu rosto.
Andra?
Ela no se virou. No podia deixar que ele a visse chorar. Homens odiavam ver mulheres chorando. Seu pai ficava muito bravo quando isso acontecia e s o que dizia era: "Enxugue essas lgrimas!".
Andra?
Continuou parada e muito quieta. Ray parou na frente dela e ergueu-lhe o queixo com dois dedos. Foi a que viu as lgrimas, que fizeram com que ele quisesse correr na direo oposta. No se sentia bem com tanta emoo. No gostava e no queria se emocionar.
Voc est chorando  comentou o bvio, sem pensar em mais nada para dizer.
	Obrigada pelo perspicaz comentrio.
	O que h de errado?
	Nada.  Comeou a chorar de novo. As palavras seguintes foram ditas em meio a soluos:  Estou parada no meio de um estacionamento de caminhes, vestida de noiva...  isso. O que pode estar errado?
	Oh, Jesus!
Contrariando seu instinto de sobrevivncia que lhe dizia para afastar-se dela, Ray a envolveu com os braos e fez com que encostasse a cabea em seu peito.

CAPTULO III

Andra tinha um cheiro to doce que Ray po-ieria ficar com o rosto enterrado em seus cabelos para sempre e sentir-se um homem muito feiiz. O corpo esguio e bem-feito, sacudido por pequenos soluos, se abandonara em seus braos, onde parecia se encaixar com perfeio.
Parecia que o tempo havia parado, e Ray se esqueceu de tudo. Seu horrio, o passado misterioso daquela linda mulher, o lugar onde se encontravam, tudo evaporou subjugado pelo enlevo daquele momento mgico. Devia apenas confor-t-ia, mas no pde evitar sentir o contato suave e desejvel daquelas formas.
Como pudera pensar que conseguiria ignor-la? No era capaz de olhar para ela sem desejar toc-la, e no podia deixar de toc-la sem desejar beij-la.
E se a beijasse, nem os cus iriam impedir que desejasse possu-ia.
Andra ergueu a cabea, enxugou as lgrimas do rosto com ambas as mos e deu um passo para trs. impondo uma distncia fsica e emocional entre os dois. Ray notou que ficara um tanto embaraada. Deu um profundo suspiro, e o clima romntico que havia se formado entre os dois se desvaneceu.
	Voc est bem?  perguntou quase com carinho.
	Sim, estou.  Andra esboou um sorriso.  De verdade. No precisa se preocupar. Desculpe-me pelo trabalho que estou lhe dando.
	Esquea. Vamos tentar resolver a situao da melhor maneira possvel.
Ray olhava para Andra como se ela fosse feita de uma porcelana muito delicada que qualquer esbarro pudesse quebrar.
O sentimento de ternura que aquele abrao despertara em Andra fora inesperado. Nunca sentira nada semelhante, nem mesmo em relao a seus pais, com os quais sempre mantivera um relacionamento distante. Nem com Phillip, quase um completo desconhecido, levando-se em conta o curto tempo do noivado. Quanto a outros homens... no houvera nenhum. Pelo menos nenhum com o qual tivesse tido um namoro mais srio.
O fato de Ray conseguir faz-la sentir-se protegida e amparada era uma experincia maravilhosa, nova e um pouco assustadora.
	Tem certeza de que est bem, Andra?
	Sim. No  nada assim to grave.
Deu outro sorriso como que para convenc-lo de que tudo estava em ordem. Alisou o vestido e olhou para a fileira de caminhes estacionados perto do posto de gasolina.
De sbito, Ray sentiu-se irritado e franziu as sobrancelhas pensando que os fatos estavam tomando um rumo que no lhe agradava.
	Est bem. Se estiver pronta, estou atrasado e preciso ver se consigo diminuir essa diferena.  Ray precisava se fixar no objetivo da viagem, que era de negcios, como j lhe tinha dito.
Um sujeito musculoso, vestido com uma camiseta preta e com os bceps tatuados, passou por eles em direo ao restaurante. Lanou um olhar curioso aos dois e continuou seu caminho. Qualquer pessoa, por mais irreverente que fosse, estranharia aquele casal bizarro, perto de um posto de gasolina e de um restaurante para caminhoneiros.
Ray viu que Andra seguia o rapaz com o olhar, observava o restaurante, pensativa, mas depois de alguns segundos se dirigiu ao lugar onde o caminho estava estacionado. Estava com fome, mas no queria pedir a ele para comer.
Espere  Ray disse, num mpeto.
Andra parou e se virou.
	O que foi? Estou me dirigindo ao veculo errado?
Ray indicou o restaurante com um gesto de cabea, concluindo que estava se transformando em um completo idiota. Percebera que Andra devia estar com fome e ficara com pena dela.
	Vamos comer alguma coisa, est quase na hora do jantar.
	Mas voc disse que est atrasado.
	E estou.  No podia negar. Essa noite teria de dirigir at mais tarde do que planejara para compensar o tempo perdido.  Porm, acho que  melhor comermos agora, uma vez que estamos aqui e o caminho j est estacionado. Assim, no precisaremos fazer mais nenhuma parada.
Na realidade, Ray no tinha inteno de parar antes de encerrar o percurso que planejara para aquele dia. Tinha alguma comida na cabine e pretendia fazer pequenos lanches nas reas de descanso ou mesmo enquanto dirigia.
No entanto, estavam fora da cidade e era bvio que Andra sentia fome. Quem sabe, depois que ela se alimentasse, e se a sorte o favorecesse, houvesse a possibilidade de reconsiderar a deciso de viajar com ele? Era difcil raciocinar de estmago vazio.
	Voc precisa comer, no , Andra?
Ela achava que poderia devorar um boi.
	Sim, mas...

	Ento, nada de "mas". Vamos at o restaurante. No sei se eles servem refeies completas, porm, um bom sanduche resolver, no acha?
	Troco qualquer refeio por um bom sanduche.
Andra desistiu de discutir. Por alguma razo, Ray decidiu que iriam comer, e ela estava faminta demais para questionar o motivo de ele estar sendo to gentil, de uma hora para outra. Deixaria para discutir isso mais tarde, quando estivesse satisfeita.
Permitiu que Ray pegasse seu brao e a encaminhasse para o estabelecimento. Como um perfeito cavalheiro ele abriu a porta de vidro para que Andra entrasse primeiro.
Obrigada.  Sorriu, enquanto entrava.
O local estava lotado, com maior quantidade de homens do que de mulheres. Todas as cabeas se viraram para olh-los.
Andra sentiu um calor lhe subir desde a ponta dos dedos dos ps at a raiz dos cabelos. Ray viu o sorriso dela se transformar numa expresso de embarao, levantou-lhe o queixo com dois dedos e a guiou at a nica mesa vazia.
Ora, ora, se no temos aqui um casal de recm-casados!
	Era uma garonete de meia-idade, num uniforme corde-rosa que no disfarava o corpo opulento.  Adoro as noivas de junho, e voc  linda, querida.
Andra a olhou por sobre o cardpio e balbuciou:
	Obrigada.
	Precisamos de mais alguns minutos para decidir o que queremos.  Ray ignorou o comentrio da garonete.
	Por que no nos traz duas sodas, enquanto nos decidimos?
Marge, a garonete, no saiu do lugar.
Acho to romntico viajarem pelas estradas recm-casados!  Marge deu um largo sorriso  Meu Earn era caminhoneiro, e eu sempre ia com ele, desde o dia em que nos casamos at o dia em que o Senhor o chamou.  Os pequenos olhos azuis ficaram tristes, mas Marge logo recobrou a alegria.
	 uma vida muito boa, querida. Conhecem-se novos lugares, novas pessoas, e o casal fica muito unido.
 mesmo? A senhora acha isso?  Andra olhava, desesperada, para Ray, como para pedir socorro.
Mas ele apenas ergueu as sobrancelhas, e Andra voltou a ler o cardpio.
	Apenas ame seu homem,  tudo o que ele quer  Marge continuou, apesar dos olhares nada encorajadores dos "noivos."  Mas por que esto sentados to longe um do outro? No me digam que os pombinhos j tiveram alguma pequena briga! No pode ser.
	Estamos apenas um pouco cansados.  Ray fechou o menu e o ps sobre a mesa. Queria fazer logo o pedido para poderem se livrar de Marge.  Temos ainda um longo percurso pela frente, ento ser melhor que faamos logo nossa refeio. Acho que j sei o que quero comer. E voc, doura? 
Andra arregalou os olhos, fitou Marge e depois Ray. Sentiu o rosto quente.
	Oh,  claro, querido!
	Vou comer um cheeseburger, por favor, Marge.  E ento, Ray se curvou e beijou Andra.  O que voc vai querer, amor?
No deveria t-la beijado. Tinha sido um terrvel erro. Mas Marge o tinha praticamente impelido a fazer uma coisa que na realidade desejara fazer desde que pusera os olhos em Andra, mas que seu bom senso havia impedido at ento.
O que queria era agarr-la, lev-la para o compartimento atrs da cabine do caminho e fazer amor com pelo resto do dia e a maior parte da noite. E isso s para comear.
Mas o corao de Ray no podia errar de novo.
	Pode trazer o mesmo para mim, Marge,  Andra era o pnico em pessoa.
	Ficar pronto em poucos minutos.  A garonete se afastou, sorrindo.
	Por que fez isso, Ray?
	O qu? Pedir um cheeseburger? Eu gosto desse lanche, e voc no precisava fazer o mesmo pedido. Poderia ter escolhido outro. O cardpio oferece vrias opes.
	No  sobre isso que estou falando!
	No? Ento o que foi que eu fiz?
	Oh, esquea!
	O que est procurando no menu, Andra? J fizemos nosso pedido, Quer trocar?
	Estou vendo que sobremesas eles tm. H quanto tempo  caminhoneiro? E lgico que no  obrigado a responder, se no quiser.
	Dirijo caminhes h cerca de dez anos. Sigo os passos do meu irmo mais velho, Zach. No ano passado, montamos nossa prpria companhia de caminhes.
Verdade? Estou impressionada, voc  to jovem!
Ray no parecia ter mais de trinta anos e j abrira seu prprio negcio.
No  nada muito grande. Estamos apenas comeando e lutando. Mas venceremos, tenho certeza. Tivemos uma vida simples, e ter nossa empresa  muito importante para ns. E uma pequena vitria.
	No  nada fcil montar uma firma, mesmo pequena.
Faz muitas viagens longas sozinho?
	No. Zach e eu temos muito trabalho para organizar e dirigir. Alm disso possumos nossos motoristas, mas um deles teve um problema, e minha cunhada est para ter um beb. Como sou solteiro... tenho mais disponibilidade.
Tambm no tinha nada que o prendesse em casa, mas isso Ray omitiu.
	Cresceu nessa regio?
	Sim, vivi em Silver Spring durante toda a vida.
Verdade? Eu tambm. Que coincidncia...
Marge trouxe os refrigerantes e tornou a se afastar.
O que teria acontecido se tivessem se conhecido antes e em outras circunstncias?, Ray pensou, sem saber por que estava tendo esse tipo de ideia.
Marge reapareceu, dessa vez com os sanduches.
Os dois estavam famintos. Ray terminou primeiro e ficou observando Andra comer, com um apetite voraz para uma mulher to magra. Imaginava como podia manter uma silhueta to esguia se sempre comesse daquele modo.
Ela percebeu que estava sendo observada.
	O que foi, Ray?
	Nada de importante. S estou pensando no caminho que ainda temos de percorrer.  Olhou o relgio de pulso, decidido a desviar o pensamento do corpo dela.  Ainda quer sobremesa?
	No.  Passou o guardanapo nos lbios com delica
deza.  Obrigada. Foi gentil da sua parte parar antes da hora. Sei que estou atrapalhando o seu esquema de trabalho.
	Andra, relita melhor. No estamos muito longe. Posso lev-la de volta para sua casa. No se acanhe em pedir-me isso. No seria melhor?
	No! Voc no entende. Se eu voltar agora...
	O que acontecer? Seus pais no a receberiam?
	Ah, meu Deus...
Ele amassou um guardanapo e o jogou no prato, a pacincia se esgotando. Suspirou.
- Tenho de trabalhar.  Pegou a conta e se levantou.
Andra encarou-o. No queria deix-lo zangado. Deveria se abrir com Ray?
Estava apenas tentando manter distncia, para no se magoar. Mas tudo o que conseguia era irritar a nica pessoa no mundo que podia ajud-la nesse momento. Levantou-se e o seguiu at o caixa.
Alguns minutos depois, estavam do lado de fora, e Andra seguia com esforo as grandes passadas de Ray, atrapalhada pelo comprimento do vestido e a longa cauda que segurava em um dos braos.
Ele destrancou o caminho e, ignorando-a, levou Rex para um passeio, e Andra ficou pensando que talvez ele preferisse que ela pegasse outro caminho e o deixasse sozinho e em paz.
Andra subiu na cabine, sentou-se, pegou a grinalda e a colocou no colo. Olhando pelo pra-brisa, orou para que Ray no pusesse a cabea na janela e a mandasse sair.
Alguns minutos mais tarde, Ray e Rex voltaram e subiram. Ele deu partida no veculo e saiu sem dizer nenhuma palavra. Ligou o rdio e sintonizou numa estao que tocava msica suave. Olhou de relance para Andra, que estava quieta, como se tentasse no incomod-lo.
Isso seria difcil, Ray concluiu, enquanto fixava o olhar na estrada.

CAPITULO IV

Quinze minutos mais tarde, j na estrada, Andra se ps a pensar se no estava sendo injusta em no responder as perguntas de Ray. Afinal de contas, ele se afastara de seu caminho e atrasara a viagem para ajud-la. Fora praticamente obrigado a isso, mas no a expulsara, e tinha esse direito.
O mnimo que podia fazer era retribuir-lhe com algumas respostas. Olhou para o bonito perfil de Ray e se decidiu:
	A razo de eu no poder voltar agora : tenho medo de que minha famlia me pressione a fazer uma coisa que no quero.
	Sua famlia quer esse casamento, e voc, no.  isso?
Ray ficou feliz por Andra estar, enfim, conversando. Tinha muita coisa a explicar. Mudou de pista para ultrapassar um carro que se movia abaixo do limite de velocidade.
	Acertou. No quero me casar.
	Mas e seu noivo? Tinha conhecimento de que voc estava se casando com ele contrariada?
Ray no tinha sido deixado no altar, mas estivera bem perto disso quando Jillian terminara o relacionamento deles. Ficara impaciente com o tempo que ele e o irmo estavam levando para montar a companhia de caminhes e, de repente, lembrou-se de que estava apaixonada por um antigo namorado... que tinha mais dinheiro.
A experincia deixara Ray amargurado, e ele podia imaginar como o noivo de Andra devia estar se sentindo.
Andra interrompeu seus pensamentos.
Ele no est apaixonado por mim, Ray.
Ray franziu o cenho. Achava a afirmao um tanto difcil de acreditar. Andra era uma mulher muito bonita. Meiga, inocente e sexy. Tudo o que um homem podia sonhar em uma noiva. Era um pouco irritante, mas...
Que tipo de pensamento era esse? Andra era mais que irritante, e era o sonho de outro homem, no o dele. Nem sonhava mais com isso. Abolira de sua existncia esse tipo de interesse. Tinha aprendido uma dura lio. No pretendia entrar em outra.
E eu no estou apaixonada por ele.
Ray deu outra olhada rpida para ela. Teve vontade de mergulhar nas profundezas daqueles olhos escuros e no mais se afastar deles.
	Se no estava apaixonada, por que ficou noiva?
	Sofri muita presso.
	Da parte de sua famlia?
	Certo. Meu pai  um homem muito autoritrio, que no aceita "no" como resposta.
	E sua me? As mes costumam ficar do lado das filhas num assunto srio como casamento. No se abriu com ela?
	Mame  dominada por meu pai e no se atreve a contrari-lo.
	Mas voc  adulta, no ?  Ray continuava forando e ficando impaciente com as desculpas que Andra dava.
 No pode culpar sua famlia por ter deixado o noivo esperando em vo no altar.
Andra apertou os lbios.
	Voc no sabe do que est falando, Ray.
	Ento justifique a atitude drstica que tomou. Precisava deixar que a situao chegasse a esse ponto?
Andra no tinha vontade de contar toda a histria sobre como Phillip fingira que a amava e de como descobrira a verdade, de como fora cortejada por interesse, como um negcio entre seu pai e o ambicioso advogado que precisava do poder e da retaguarda de um poltico rico.
Era embaraoso demais, e no queria despertar a compaixo de Ray.
Apenas preciso de tempo para pensar, Ray. O interrogatrio terminou, comandante?
Ray lhe endereou um olhar furioso.
Olhe, podemos falar sobre isso mais tarde?  Andra estava cansada e esgotada demais, e o assunto era muito penoso.
Ray notou que ela parecia ainda mais magra e mida, com os ombros cados e o rosto triste. Devia estar exausta e um. pouco assustada, o que o fez sentir-se como um carrasco. Mas tinha o direito de esperar respostas dela, e no entendia por que sentia-se culpado por isso. A situao toda era uma tremenda loucura.
	Est bem, Andra. Falaremos sobre isso mais tarde.
	Obrigada.  Deu um pequeno sorriso.
	Temos de fazer alguma coisa a respeito de suas roupas.
	Bem, parece que a companhia area perdeu minha bagagem  Andra brincou.
Ray ignorou a observao bem-humorada.
	Hoje eu preciso compensar o tempo que perdi, mas amanh acharemos um lugar onde fazer compras. Por hoje, verei alguma camiseta que voc possa usar, e acho que poder tambm experimentar um dos meus jeans. Vo ficar grandes, mas ter de se ajeitar com eles.
	No quero pegar suas roupas-, Ray.
	Mas eu quero que as use. Voc  sempre assim difcil?
	Eu no sou difcil! Por que pensa isso de mim?
	Est bem, deixe para l. Entre no compartimento de dormir e ache alguma coisa para vestir. Os jeans e as camisetas esto nas gavetas embaixo da cama. Procure at achar alguma coisa conveniente.
Andra resmungou baixinho. Comeava a achar que ele era to dominador quanto seu pai.
Est bem, Ray.
Virou-se no banco. Precisaria passar pelo cachorro para entrar no "quarto". Ela e Rex se olharam e se mediram por um momento.
Respirando fundo. Andra se ergueu, levando a grinalda consigo. Rex deixou-a passar e ficou observando-a.
Depois de dez minutos, Andra cerrava os dentes, sentindo-se frustrada e em dvida se devia chorar ou praguejar, pois no conseguira tirar o vestido.
Voc se perdeu a dentro?  Ray gritou, da boleia.
Andra ps a cabea para fora da cortina.
	No. No consigo...  Franziu as sobrancelhas, embaraada.  ...descer o zper. Parece que emperrou.
Ray olhou para ela. Passara os dez ltimos minutos lutando e perdendo uma batalha contra sua imaginao que insistia na imagem de Andra se despindo. Imaginara a figura esguia, nua, a apenas alguns passos dele. Ansiava por v-la usando suas peas enormes para banir de sua mente a fantasia que estava, contra sua vontade, alimentando.
Preciso de ajuda, Ray. No vou conseguir sozinha. Sinto muito.
Ray suspirou. Tentou ignorar a pulsao acelerada do corao e estampou no rosto uma expresso de indiferena quando Andra voltou ao banco da cabina.
No tem problema  mentiu.
Andra lhe deu as costas e puxou os cabelos para frente.
Ray apoiou o joelho na direo, dividindo o olhar entre ela e a estrada, e atacou o problema.
Alcanou o zper com os dedos. O cheiro que exalava dos cabelos de Andra o deixava louco.
Gotas e suor salpicavam-lhe a testa.
	Est descendo?  Andra olhou para ele com um olhar ingnuo e inocente, sem ter a mnima ideia da tempestade que o episdio provocava no ntimo de Ray.
	Quase.
De repente, o fecho abriu de uma s vez at um pouco abaixo da delgada cintura de Andra, antes que Ray percebesse o que estava acontecendo. Afastou a mo depressa, como se tivesse tocado o fogo.
Piscou, olhou para a estrada e agarrou a direo com ambas as mos. Sentia falta de ar e ficou imaginando por que a cabine ficara to quente de uma hora para outra.
Obrigada.  Andra segurou a frente do vestido com as duas mos para que no casse.
Ray no conseguiu olhar para ela. Alguns segundos mais tarde, ouviu o som da cortina sendo fechada e soube que ela estava mais uma vez dentro do quarto.
Trmula, Andra vestiu uma cala, prendendo-a com um cinto, e enfiou a camiseta por dentro. Voltou para a boleia e sentou-se ao lado de Ray.
	Achou tudo de que precisava, Andra?
	Tudo, menos sapato,  claro.
Ray ficou desapontado com a aparncia dela. No era isso o que esperava. Continuava to sexy ou mais. O jeans grande demais estava apertado por um cinto que deixava a cintura dela ainda mais fina. A camiseta de malha revelou os mamilos quando ela ergueu os braos para prender os cabelos num rabo-de-cavalo, com um elstico que encontrara em uma das gavetas.
Ele no s precisava comprar-lhe roupas adequadas, como tambm tinha de arrumar-lhe um suti. Ou ento no poderia mais olhar para ela nem por um instante.
Andra baixou os braos, o que foi muito bom.
	Como est frio aqui dentro, Ray! Voc se importaria de aumentar a temperatura do ar-condicionado? Estou congelando.
	Claro.  Regulou o termostato.  Est melhor?
Sim, obrigada. Melhorou bem. Agora est agradvel.
Durante alguns minutos s o que se ouviu foi o ronco do caminho.
Andra ergueu as pernas e as envolveu com os braos, apoiando o queixo nos joelhos. Os ps pequenos estavam descalos. Eram bonitos, como todo resto.
	Est to gostoso aqui! Eu no tinha ideia de como os caminhes podem ser to... confortveis.  Tambm tinha ficado surpresa pelo conforto da rea de dormir.
	Mudar de ideia em poucos dias.
	Por qu? Voc deve gostar, se faz isso h tanto tempo.
 Sentiu uma sbita curiosidade a respeito daquele homem bonito sentado atrs da direo do veculo.
	H muita liberdade em se dirigir um caminho. Todo dia na estrada o torna independente e possibilita que se conheam lugares e pessoas diferentes. E o dinheiro que se ganha no  pouco. Mas pode ser tambm solitrio e maante. 
	Foi por isso que seu irmo decidiu montar a prpria empresa? Para no ter mais de viajar?
	Em parte. Zach e Sherry se casaram e decidiram,  claro, se instalar numa casa normal para constituir uma famlia.
- E voc?
Eu estava pronto para sair para a estrada.
Os olhos de Andra se apertaram, e Ray ficou em silncio, demonstrando no querer se aprofundar nas respostas.
	Mas creio que, decerto, tem algum esperando por voc em casa, no tem, Ray?
	No estou envolvido com ningum.
Andra no entendeu o tom da voz dele. Teria terminado algum relacionamento ou estaria aborrecido com tantas perguntas?
No iria mais question-lo, pois j sabia o suficiente.
Prestou ateno ao rdio durante alguns minutos e percebeu que, se no iniciasse uma outra conversa, na certa ficariam mudos durante toda a viagem. Procurou, ento, um outro assunto, menos constrangedor. Estava claro que Ray no queria falar sobre sua vida particular.
	Sinto-me to bem sem aquele vestido estpido... Estou bem melhor agora.
	Achei-o atraente.
	Bom para voc, que no teve que vesti-lo! Noivos se trajam com mais simplicidade e comodidade. Uma gravata borboleta, uma faixa na cintura e um belo palet, e esto prontos e elegantes. A noiva, porm, alm do vestido desconfortvel com aquela cauda pesada, tem de usar uma srie de acessrios que so uma tortura, como sapatos de salto alto, vu e grinalda. Acho que sempre odiei toda a encenao formal da cerimnia. Se eu fosse casar... mas no vou, eu nunca...
	Nunca?
	Nunca.
	Por qu?  Ray arriscou-se a indagar, imaginando se dessa vez Andra lhe daria uma resposta convincente ou seria evasiva de novo.
	Nem todas as mulheres sonham em ficar presas numa gaiola dourada com duas ou trs crianas ao redor.  Ergueu os ombros querendo parecer casual.  Quero ser independente.
	Posso entend-la muito bem.  assim que me sinto.
	De qualquer modo, mesmo que me casasse, eliminaria a cerimnia na igreja, com centenas de pessoas observando para depois comentarem a respeito do vestido da noiva, da elegncia do noivo, padrinhos e pais. E impessoal e enfadonho demais. No nasci para protagonizar esse tipo de cena. Sou uma pessoa de gostos simples.
O olhar de Ray ia da estrada para Andra. A luz do crepsculo punha reflexos dourados na tez clara do rosto dela. Pondo atrs da orelha uma mecha que escapara do rabo-de-cavalo, ela continuou a falar, animada:
	Gostaria de algo mais romntico.  Encostou-se no banco e apoiou a cabea no couro macio do estofado.  Alguma coisa divertida.
	Como assim?
	Eu eliminaria todo o estardalhao. Iria para Las Vegas, me casaria na capela Elvis e usaria roupas bem simples e confortveis.
	Voc tem certeza?  Ray no conseguiu segurar uma risada.
Podia imagin-la fazendo isso. Andra era mesmo um tipo impulsivo.
	Sim, tenho certeza.
	Pensei que todas as mulheres sonhassem com uma cerimonia requintada e grande, com muitas pessoas e um vestido magnfico, dzias de damas de honra, vrios padrinhos e a pompa de uma princesa.
	Eu no.  Fez uma careta e deu-lhe um sorriso lindo, mostrando os dentes brancos e perfeitos, parecendo flertar com ele.  E voc? Qual  sua concepo de um casamento perfeito?
Ray pensou nos planos que fizera com Jillian. No queria falar sobre isso, no estava pronto para enfrentar tal assunto. A amargura que carregava o impedia de se imaginar em um lar, em uma famlia e tudo o que isso envolvia.
Afastando as imagens do passado, voltou  hipottica questo de Andra.
No sei.
Andra o observava como se esperasse uma resposta interessante, e, por uma razo estranha, Ray no queria decepcion-la.
Alguns meses atrs, vi uma coisa na televiso a respeito de um casal que teve um casamento, no mnimo, peculiar. Fizeram seus votos e se jogaram juntos de uma ponte, onde estavam presos por elsticos nos tornozelos. O que voc acha?
Ela pareceu considerar a ideia, o que lhe disse muito a seu respeito.
	Ah, eu no gostaria  disse, por fim.  Passaria mal de medo. Sou muito medrosa.
	Medrosa? Voc?!  Incrdulo, Ray olhou-a de relance.
	Sim, eu mesma. Sou uma pessoa insegura. Voc no me conhece, por isso duvida.
O ltimo comentrio devolveu Ray  realidade.
 verdade, no a conheo.  Apertou a direo com mais fora.  E no sei o porqu desse tipo de conversa. No planejo me casar e, pelo visto, nem voc.
Andra olhou para Ray, como se fosse dizer alguma coisa, mas desistiu, fechou a boca e olhou atravs da janela do passageiro.
Ray voltou a ateno para a estrada.
Era tarde quando entraram numa rea de descanso, um pouco depois do limite do Estado de Tennessee, onde Ray tinha planejado fazer a primeira parada.
Andra quase no dormira na noite passada e estava exausta, mas se esforava para ficar acordada. Sentia-se culpada por dormir enquanto Ray ainda trabalhava, apesar de no conversarem muito.
Olhou para ele quando desligou o motor. Depois de pegar a comida do cachorro, ele e Rex desceram da boleia.
Andra sentia o corpo dolorido, depois de tantas horas sentada, e pensava, ansiosa, no conforto do cmodo atrs da ca-bine. Mal podia esperar para esticar as pernas e se deitar.
De repente, prendeu a respirao, assustada, com o que acabara de imaginar.
A cama onde ansiava por se deitar era a cama de Ray!

CAPITULO V

	Ol, Zachi Como voc est? E Sher-ry, como vai?  Ray encostou-se na parede de tijolos, na rea de descanso, puxando o telefone pelo fio de metal.
Rex sentou-se perto.
Ray gostava de provocar Zach com a futura paternidade. Amava muito o irmo e a cunhada, e nunca conhecera um casal to ansioso para serem pais, e ele prprio estava louco para se tornar tio. Com o beb prestes a nascer, se habituara a telefonar vrias vezes durante a viagem.
Nesse momento, tinha uma razo a mais para ligar. Depois do dia atribulado que tivera, precisava ter um dilogo equilibrado e real.
Andra virara sua vida de cabea para baixo.
Est tudo bem, Ray. Nada de novo para contar, a no ser que se fale sobre a ltima remessa de bichinhos de pelcia, fraldas, roupas e livros de histria. Seria bom que esse beb viesse logo para que Sherry tenha alguma coisa para fazer alm de compras.  Zach fingia uma contrariedade que esta longe de sentir. Mudou de assunto:  Como est indo?
Ray se virou e olhou para o veculo. Andra estava quieta, sentada na boleia. Tornou a se virar, para que ela no ouvisse a conversa. Tentou encontrar uma palavra para descrever a viagem. Uma palavra para descrever Andra.
Diferente  disse, sem convico. No era bem isso o que tinha em mente. Mas teria que se alongar muito para descrever o enigma que era Andra.
O que quer dizer? Teve algum problema?
Ray hesitou.
	O que est acontecendo? O que quer dizer com "diferente?"  O tom de voz de Zach, agora, denotava impacincia.
	Peguei uma pequena carga extra.
	O que ?
	No  "o que", mas sim "quem".
	Deu carona para algum companheiro? Pode vir a ser til para revezar na direo.
	 uma companheira.
	Deixe de brincadeira, Ray, e conte-me logo tudo de uma vez.
	Acho que seria melhor eu explicar quando estiver de volta.  uma histria meio complicada.
	Se no tinha inteno de contar, por que comeou?
Agora, fale. Est me deixando nervoso.
Ray ps o irmo a par de toda a situao, pelo menos do que tinha conhecimento. E no mencionou,  claro, a atrao que sentia por Andra e que a havia beijado. No queria que Zach fizesse algum julgamento errado.
	No acredito, Ray! Voc passou os ltimos doze meses fugindo das mulheres e agora pretende viajar durante dez dias com uma mulher no caminho!
	No  o que est pensando.  Deveria saber que o irmo no entenderia, apesar de Zach e a cunhada sempre insistirem que arrumasse uma namorada.
	Oh, ento o que ? Estamos expandindo nosso servio?
Agora carregamos passageiros?
	Estou fazendo um favor a ela.  Suspirou.  E isso  tudo. Eu no podia jog-la para fora da cabine, podia? No a convidei, ela apenas entrou e no quis mais sair.
Fui obrigado a aceit-la, e depois fiquei com receio de deix-la na estrada e a coitada ter de pedir carona para algum mau elemento. Seria muito perigoso.
	Ah... Aposto que  bonita, no ?
	Isso no tem nada a ver com a situao.
	Ento ela  bonita!
Ray suspirou de novo.
	Est bem, pare de caoar. Confesso que  atraente.  Atraente era pouco, mas no iria dar mais detalhes ao irmo.
 Mas repito: isso no teve nenhuma influncia em minha deciso. A garota precisava de ajuda, e eu a ajudei. E uma completa estranha para mim. Nem mesmo sei seu sobrenome!
	No se preocupe com isso.  Zach riu.  Dez dias sozinhos no caminho e no sero estranhos por muito tempo.
	Voc est maliciando uma atitude de pura solidariedade.
	Est bem, no vamos discutir por causa disso. Voc  adulto, e espero que a moa tambm seja.
Depois de mais alguns minutos de conversa, Ray desligou, pensando nas observaes do irmo. Por que consentira que Andra viajasse consigo? Deveria ter insistido que sasse do veculo, ou poderia t-la levado a algum lugar onde estivesse a salvo, uma delegacia, uma biblioteca, um shopping center. Seria o que qualquer homem de juzo perfeito faria.
Mas deixara que aqueles olhos luminosos e grandes o convencessem a deix-la ficar.
	Ol!
Ray se virou, surpreso. Andra estava a sua frente. Penteara os cabelos antes de descer do caminho, pois no estavam mais presos com o elstico. Agora caam soltos e cacheados pelos ombros.
Atrs dela, tudo estava escuro e quieto. Os motoristas dos outros caminhes ali estacionados deveriam estar se preparando para dormir, pois no havia ningum perambulando nas redondezas.
	Gostaria de caminhar um pouco por a, Ray.
	Est uma noite muito bonita.
Ray no era muito bom para conversar, e continuava a pensar na conversa que tivera com Zach.
"Dez dias juntos no caminho e no sero estranhos por muito tempo."
Essa possibilidade o assustava.
	Conversou com algum de seu escritrio ou alguma coisa do gnero?  Andra apontou o telefone com um gesto de cabea.
	No, conversei com meu irmo. Sherry est para dar  luz, ento costumo telefonar todos os dias para saber como eles esto.
Haviam comeado a andar, Rex acompanhando-os.
	Eles sabem se vo ter menino ou menina?
	 um menino.
	Verdade? Que bom!  Andra sorriu.   o primeiro filho?
Ray meneou a cabea, confirmando.
Esto muito excitados e felizes.
E o orgulhoso tio, como se sente?
Ray no pde deixar de sorrir,
	Tambm estou muito contente.  Franziu o cenho.
 No queria me ausentar antes de conhecer meu sobrinho, mas no houve jeito de adiar a viagem.
	 bom que esteja feliz tambm. E o restante de sua famlia, est animado? E o primeiro neto?
	Sim, ser o primeiro de ambos os lados. Minha me e os pais de Sherry esto que no cabem em si de alegria. 
No acrescentou mais nada, mas Andra insistiu:
	E quanto a seu pai?
	Papai morreu em um acidente numa construo quando ainda ramos crianas.
Ray respondera com naturalidade, mas Andra pde perceber a sombra de tristeza que lhe passou pelos olhos.
Minha me teve de trabalhar muito para nos criar sozinha.
Andra lembrou-se de que Ray lhe dissera que no tinha muitas posses quando era jovem, e sentiu uma onda de simpatia crescer dentro dela.
	Sinto muito, Ray.
	Est tudo bem. Isso aconteceu h muito tempo, agora mame est bem, e a chegada do neto vai preencher sua vida.
Deram a volta pelo prdio da administrao da rea de descanso e diminuram os passos quando se aproximaram do caminho.
	Mame  uma mulher forte e com um corao enorme. Deu-nos amor em dobro e nos compensou pela falta do pai.
Chegaram perto do veculo e pararam. Ray esperou que Andra subisse, mas ela no se moveu. Parecia que tinha alguma razo para no entrar. Ficou ali, parada, esperando que ele dissesse ou fizesse alguma coisa.
Ray olhou para a cabine. Estava cansado e ansioso para se deitar. De sbito, seu corao disparou. At se esqueceu do cansao.
Estivera to ocupado durante toda a tarde, tentando no reagir a Andra, que se esquecera de fazer algum arranjo para a hora de dormir. Devia ser por esse motivo que ela estava vacilante e insegura.
	Se estiver pronta para se recolher, voc poder usar o beliche, Andra.  Tentou falar com casualidade, para no dar impresso de que a situao era um tanto esquisita.
 Dormirei na cabine.
	E muita generosidade de sua parte, mas no posso aceitar. Voc dirigiu o dia todo e precisa descansar bem. A viagem  longa. Eu durmo na frente.
	No se preocupe, o banco  bastante confortvel.
Tambm no me importo, e no vou desacomod-lo. Como j lhe disse antes, no quero atrapalh-lo, nem aborrec-lo.
	Otimo. Se no quer me aborrecer, ento pare de discutir comigo.  Ray comeou a andar de novo, porque a conversa o estava deixando nervoso.
Andra correu atrs dele.
	Bem, obrigada. Tem sido muito gentil comigo e...
	Volto a repetir que no  problema, para mim, dormir na frente, e, alm do mais, no estou cansado.
Era verdade. No estava mais. O pensamento de Andra em sua cama despertara sua libido, e sabia que agora demoraria para conciliar o sono.
	Vou ficar aqui fora mais algum tempo, Andra. Preciso levar Rex para andar um pouco, para que ele no fique irritado.  Precisava de um tempo sozinho, longe dela e de seu fascnio.  Boa noite.  E se afastou.
Ray atravessou a calada e se dirigiu  rea de piquenique, onde pegou um graveto de baixo de uma das rvores. Atirou-o em direo do gramado para que Rex fosse busc-lo.
Andra continuou a olhar para ele. No queria que Ray fizesse sacrifcios por ela. J o tinha colocado numa situao constrangedora e aborrecida. Parara de discutir a respeito porque Ray ficara bravo, mas sentia-se culpada e queria ser til.
	Se voc vai ficar aqui fora por algum tempo  falou em voz bem alta para que ele pudesse ouvir , quer que eu lhe traga do caminho alguma coisa para beber? Sabia que havia refrigerantes na geladeira.
	Voc no tem de...  Ray se interrompeu. No queria discutir de novo. Ela s estava tentando ser prtica, trazendo-lhe alguma coisa antes de ir para a cama, para que ele no tivesse de entrar no quarto.  Claro, obrigado. Aceito.
	Otimo! Vou pegar uma bebida para mim tambm, para lhe fazer companhia.  E se virou para subir no caminho, os cabelos escuros acompanhando os movimentos cadenciados de seu corpo bonito e esguio.
Ray tirou o graveto molhado da boca do cachorro e falou com o animal como se ele pudesse entend-lo:
	Este no  meu dia, no  companheiro?  E atirou o graveto outra vez.
Instantes depois, Andra se aproximou, trazendo duas latas de coca-cola.
Obrigado, Andra.
Rex vinha se aproximando com o graveto na boca e parou na frente de Ray, abanando a cauda, satisfeito pelo dever cumprido e feliz por estar agradando o dono.
	Agora uma pausa, Rex.  Ray acariciou a cabea e as orelhas do animal, que sentara-se aos ps dele com a respirao ofegante e a lngua para fora da boca.
Ray tomou um gole e ps a lata sobre a mesa, em silncio.
Andra pensou em alguma coisa para dizer, j que era bvio que ele no parecia disposto a entabular uma conversao. Decidiu falar sobre o cachorro:
	H quanto tempo esto juntos, voc e Rex?
	Ns nos encontramos na rea de descanso de uma estrada de Montana, alguns anos atrs. Rex estava sozinho e faminto. Pelo jeito, algum o havia abandonado. Ainda era novo e pequeno, requeria certos cuidados. Aposto que foi esse o motivo de ter sido deixado s.
	Ele tem um nome original  ela provocou.
Ray apoiou os cotovelos sobre a mesa.
	Bem, tive de pensar muito para me decidir.  Ele fingia estar faiando a srio, mas o brilho de seu olhar indicava que brincava. Sorriu.
	Tenho certeza de que sim.
	Na realidade, eu tentava arrumar um nome para ele, e enquanto isso o chamava de Rex.  Ray no falava com entusiasmo, mas Andra percebia que estava satisfeito em falar sobre o co, como todas as pessoas que gostam de animais.  Depois de um tempo, achei mais fcil cham-lo de Rex do que ficar tentando encontrar outro nome.
	Sinto pena de seus filhos. Como vai cham-los? Menino? Menina?
	Seria mais prtico cham-los de Criana, assim servir tanto para menina quanto para menino. Mas isso no importa, porque no pretendo ter filhos.
Ento, Ray se arrependeu por ter falado tanto. Depois do fiasco de Jillian, casamento no estava mais em seus planos, e se conformara com a ideia de no deixar descendentes.
Andra tomou um gole da sua coca-cola e colocou a lata sobre a mesa.
	Tambm acho que no terei filhos, uma vez que no pretendo me casar.
Os dois ficaram em silncio.
Ray procurou outro assunto para conversa, um tpico que no levasse o dilogo para o terreno pessoal e muito menos a respeito de crianas.
	O que voc faz quando no est escondida em um caminho, Andra?
Olhou para Andra, que tomou um gole do refrigerante antes de responder:
No fao muita coisa. Tinha planos de estudar advocacia.
Ray arregalou os olhos, pois a resposta o surpreendera.
	Verdade? No consigo imagin-la numa faculdade de direito.
	E engraado, nem eu me imagino. Nem meus professores me animaram.
Ray teve a impresso de que essa no era a histria toda.
	Queria mesmo ser advogada?
	No.
	Mas chegou a comear o curso e depois viu que no era o que queria?
	No, no foi bem assim. Nunca tive vontade de estudar direito.
	Mas ento por que no escolheu outra carreira?
	Porque era isso o que minha famlia queria que eu fizesse.
	Ah, entendo...
Andra o encarou e ficou na defensiva.
	No, voc no entende. No pode entender como  minha famlia. Eles...
	Voc est certa. No entendo como pode deixar outras pessoas dirigirem sua vida. E quanto a seus sentimentos, seus objetivos e ideais? O que gostaria de fazer? No tem seus prprios sonhos?
	 claro que tenho!  Parou de falar e engoliu em seco, emocionada. Depois de alguns segundos se refez.  Comecei a fazer faculdade de artes plsticas. Queria ensinar arte s crianas.
	E por que no volta para a faculdade e termina o curso? Quantos anos tem? Vinte e trs? Vinte e quatro?
	Vinte e cinco.
	E o que far se no voltar  universidade? Pretende trabalhar ou lecionar alguma outra matria?
	Ainda no decidi.
Andra no estava pronta para ter aquela conversa. Pensar no passado lhe era doloroso, e imaginar o futuro a atemorizava.
Para onde vamos amanh, Ray?
Ele desejava insistir. Ficara interessado em saber o motivo pelo qual Andra deixara de estudar e o que a impedia de voltar a faz-lo. Porm, desistiu. Seria melhor se contentar com essas informaes, pois no queria e no podia se interessar por ela.
Creio que amanh chegaremos a Arkansas.
Ray tomou o ltimo gole, jogou a lata num recipiente para lixo pendurado em uma das rvores e levantou-se, sendo acompanhado pelo cachorro.
	J  tarde, no ?  Andra despejou o resto de seu refrigerante na grama e tambm jogou a lata no lixo.
Os dois caminharam em direo do veculo. Ray lhe ofereceu a mo para ajud-la a subir na boleia e depois a seguiu, com Rex em seus calcanhares. Sentaram-se e olharam um para o outro.
	Pode ir para a cama, Andra. Esse  um assunto decidido.
	No posso fazer isso, Ray.  voc que dirige e precisa... Bem, h bastante espao no cmodo de trs.
Ray a olhou fixo, fazendo-a corar. Mas assim mesmo Andra terminou o pensamento.
	Veja, somos ambos adultos, no somos? No h razo de...
	No h razo para o qu?
	Para no dormirmos juntos  falou de supeto.
Ray ergueu as sobrancelhas, sem responder nada.
	Ou melhor, s vamos partilhar a mesma cama.  Andra parou de falar para no meter os ps pelas mos.
Ray resolveu livr-la do constrangimento.
	Eu entendi, Andra. Relaxe.  Sorriu para lhe infundir confiana.  Sei que no est me oferecendo seu corpo.
O pulso dela disparou. Depois daquele sorriso, partilhar a mesmo leito parecia a coisa mais natural a ser feita.
Se estiver bem para voc, ento para mim tambm estar.
Ray se ps a pensar se conseguiria dormir perto dela sem toc-la. Mas teria de tentar. Alm do mais, tinha a impresso de que, se no concordasse, a discusso no teria fim.
Por que no entra primeiro e se ajeita?  ele sugeriu.
Andra respirou fundo e entrou no quarto.
Ray desceu do caminho e andou durante dez minutos para dar a ela tempo de se trocar e deitar-se e a ele de controlar sua agitao.
Quando entrou de novo na cabine, encontrou Andra coberta at o pescoo e deitada na extremidade da cama encostada na parede, o mais afastada que podia ficar. Tudo o que conseguiu ver foram as pontas dos dedos segurando a coberta.
	Eu no tinha nada para vestir, por isso vou dormir com minhas... isto , com suas roupas.  O rosto dela estava plido.
	Tambm dormirei com o que estou vestindo.
Ray apagou a luz, entrou debaixo das cobertas e logo sentiu que tocava algo macio. "Andra!"
Desculpe-me.  Ray afastou-se o mais que pde.
Pensou que se conseguisse adormecer na posio em que se encontrava na certa acordaria no cho.
	No foi culpa sua. Eu me movi.  Andra encostou-se bem contra a parede, pensando que, por mais um pouco, a atravessaria.
Ray abriu os olhos. Sentia-se sufocar, acalorado e inquieto. Praguejou alto. Aquela mulher no era para ele. Sabia disso. Por que seu corpo no sabia tambm?
	O que h?  Andra sentou-se e olhou para ele. Na escurido, s conseguia imaginar suas sobrancelhas franzidas de preocupao.  O que est acontecendo? Est se sentindo mal?
	Isto no vai funcionar.
	O qu?
Ray sentiu vontade de estrangul-la. A ideia tinha sido dela, e a agonia que sentia era culpa dela. Estava ficando louco, e Andra agia como se estivesse deitada com Rex.
Era demais para seu ego.
Isto! Vou sair daqui.  Afastou-se quase correndo.
Andra ficou atnita, sem saber o que pensar ou o que dizer.

CAPITULO VI

Ela fora embora!
Ray fechou os olhos e tornou a abri-los. A cena, na parte de trs do caminho, no mudara.
A cama estava arrumada e vazia. Andra no estava por perto.
Ele se mexeu no banco da frente, onde passara uma longa e desconfortvel noite, e olhou pelo pra-brisa, um pouco confuso e procurando algum sinal de Andra. No havia nenhum. O que viu foi o alvorecer prateado pondo pontos luminosos na grama e derramando uma claridade difusa e plida no restante da rea.
A distncia, na estrada, o trfego comeava, lembrando a Ray o longo dia de viagem que teria pela frente.
Pretendia estar dirigindo antes do amanhecer, mas dormira alm do horrio habitual, apesar de ter sido um sono intermitente e perturbado pelo desconforto da posio e dos sonhos com Andra.
Teria sido tudo um pesadelo? Salvar Andra do carro em velocidade, fugir com ela no caminho, abra-la, beij-la, deitar a seu lado...
Levantou-se, entrou no quarto, abriu gavetas e outros compartimentos procurando algum sinal de que Andra existia.
Encontrou o vestido de noiva amassado e embolado em uma das gavetas. Olhou para ele durante um momento e o levou ao rosto, inalando a agradvel fragrncia que dele emanava. Era o cheiro dela. Suave e convidativo. 
Andra estivera ali. No tinha sido um sonho.
Sentiu alvio, pois no queria de jeito nenhum que tudo tivesse sido irreal. Queria...
O que ele queria? Resmungou, afastando o vestido do rosto e alisando o cetim e a renda de que a roupa era feita. O sensato seria desejar que Andra fosse apenas a personagem de algum terrvel pesadelo.
Irritado, devolveu a roupa  gaveta, que fechou com raiva, e voltou para a boleia. Esses sentimentos no faziam sentido, precisava se ater aos fatos. Isso significava que Andra poderia estar em algum lugar das redondezas e apareceria a qualquer minuto. Claro que seria assim, pensou, para tentar se tranquilizar.
Com o intuito de se distrair, pegou o jornal do dia anterior, que estava no cho. Depois de dar uma olhada rpida nas manchetes da primeira pgina, abriu o caderno de variedades e comeou a fazer palavras cruzadas.
No conseguiu se concentrar. Olhou para a rea de descanso, na esperana de avistar Andra. Por fim, dobrou o jornal para p-lo de lado, quando alguma coisa lhe chamou a ateno.
Na pgina das colunas sociais havia a notcia de um grande casamento e uma fotografia... de Andra Conroy, filha do senador William Conroy IV.
Graas a Deus conseguira fazer com que ela telefonasse para a famlia dizendo que estava bem. Esperava que tivessem acreditado nela, pois, do contrrio, estaria mais en-rascado do que pensara no incio da "fuga".
Olhava para a foto, querendo se lembrar de alguma coisa que lera a respeito do pai dela. Lembrou-se de que, fazia pouco, lera um artigo sobre William Conroy. O pai de Andra era um dos homens mais ricos do Senado dos Estados Unidos, o que explicava a impresso que tivera dela, baseado no luxo do vestido de noiva que usava e dos brincos de brilhante que Andra lhe dera, como garantia de que o ressarciria das despesas que por ventura lhe desse. 
Lembrou-se tambm de que ela no lhe dissera seu sobrenome. Mas por qu? E onde estava ela, afinal?
Atirou o peridico no cho e saiu. Tudo estava quieto a seu redor, e a preocupao dele aumentava. Os demais veculos que estiveram estacionados na vspera j tinha partido, e o seu era o nico que ainda permanecia no estacionamento.
Onde estaria Andra?
 medida que os minutos iam transcorrendo a ansiedade de Ray aumentava, e nenhum sinal da sua companheira. Comeou a andar de um lado para o outro, incapaz de parar, e sem saber o que pensar e o que fazer.
Olhou para o relgio de pulso. Precisava partir. Tinha de tomar um banho, comer alguma coisa e reiniciar a viagem.
Mas e Andra?!
Sua imaginao comeou a trabalhar. E se ela tivesse pegado carona com outro caminhoneiro? Esse pensamento era apavorante, e o deixou  beira do pnico.
A ideia seguinte foi ainda mais apavorante. E se Andra tivesse se levantado mais cedo e sado para uma caminhada e fora atacada e violentada por algum estranho, algum marginal, que estivesse nas redondezas? O lugar era frequentado por todo tipo de gente.
Parou de andar, alarmado com essa possibilidade. No estava acostumado a se preocupar com algum, e o que estava sentindo o desagradou.
Deixou Rex perto do veculo e se afastou para vasculhar a rea, com o corao disparado. Chegou ao reservado para mulheres e bateu na porta.
 Andra!
Esperou alguns segundo e tornou a bater. Como no obtivesse nenhuma resposta, sua pacincia se esgotou. Empurrou a porta e introduziu a cabea no vo. No viu nada. As paredes eram pintadas de uma cor bege, feia e desbotada. Havia um grande espelho com pias e bancadas e bancos encostados na parede oposta. Ligada a essa parte havia um vestirio e chuveiros.
Ray deu um passo em direo do vestirio e imediatamente viu uma pequena pilha de roupas que lhe eram familiares: a camiseta vermelha e seu jeans. Perto dessas peas havia uma outra pilha de trajes limpos: cala jeans e uma camisa azul-clara, tambm dele.
	Ray?
Ele virou-se e viu Andra de p, sua frente usando apenas uma pequena toalha de banho. Sua expresso era um misto de choque e surpresa.
O pulso de Ray se acelerou, e a sensao que teve foi de alvio e... desejo.
Andra.  Parecia que sua lngua estava presa num n.
Ela estava nua sob a toaiha, que segurava firme ao redor
do corpo, mas que cobria apenas dos seios at um pouco abaixo dos quadris. Os cabelos molhados caam cacheados sobre os ombros nus.
O que voc pensa estar fazendo, Ray?
De repente, ele sentiu-se um perfeito idiota por ter se preocupado com ela e invadido o banheiro feminino. O que havia de errado com ele? Desde o dia anterior agia de maneira estranha para seu padro de comportamento.
O que voc pensa estar fazendo?  respondeu com outra pergunta, na defensiva.
Estava irritado consigo mesmo. E Andra, com aqueles inocentes olhos castanhos, seminua, tambm o estava irritando.
Ela estava linda com o rosto limpo, sem mais nenhum vestgio de rnaquilagem. Ainda no tinha visto suas pernas, e descobriu que eram longas e muito bem torneadas. Do jeito que imaginara que fossem. Lindas.
	Estou tomando um banho  respondeu com. irrefutvel
lgica.
	Durante trinta minutos?
	E muito tempo?  Ela ergueu as sobrancelhas.
	Sim, .
	Est bem. Por isso precisou invadir o recinto? No sabe que aqui  a ala feminina?
	No,  que...  No sabia como se justificar.
Ray temia que, a qualquer momento, a toalha pudesse escorregar mostrando um dos seios que ele imaginava bonitos, como o resto do corpo. Sua boca ficou seca, e no conseguiu responder.
	Bem, ento o que h, Ray?
	Eu... no tinha ideia de onde voc poderia estar  conseguiu balbuciar. Sentiu-se ainda mais tolo.  Pelo que eu sabia...
	O que voc sabia? Estava preocupado comigo?
	Estou preocupado com meu horrio.
Sim, estivera preocupado com ela, mas no iria confessar. J sentia-se tolo o suficiente.
Andra pareceu decepcionada com a resposta, o que fez com que Ray se sentisse arrependido e com sentimento de culpa. O que o zangou ainda mais.
	Eu deveria estar na estrada h uma hora!
	H uma hora voc ainda estava dormindo.  Andra suspirou com uma expresso de descrena.
	E por culpa de quem?  Ray retrucou, lembrando que ficara acordado a maior parte da noite, lutando com os sonhos e a atrao que ela exercia sobre ele.
	O que quer dizer com isso?!
	Olhe, tenho um horrio a cumprir e costumo lev-lo a srio. Se pretende viajar comigo, ter de lev-lo a srio tambm. Voc pode ter tempo de brincar de pobre menina rica, mas eu...
	Pobre menina rica? Sobre o que est falando?
	Sabe muito bem, Andra. A filha de uma grande senador fugindo com um caminhoneiro... Que aventura para voc! Bem, isso  meu...
	Como sabe quem  meu pai?  Andra arregalou os olhos.
	Que diferena faz como eu sei? O ponto principal  que estou em viagem de negcios, e no a sua disposio. Por isso, agradeceria se fosse para o caminho, agora.
	Otimo.
	Vista-se primeiro!
	Oh...  Encarou-o.  Desculpe-me. Vestir-me no fazia parte das instrues originais, por isso fiquei confusa.
	Partirei em quinze minutos. E se voc no estiver l eu...
	Voc o qu? Partir sem mim?
	No me tente e no me provoque!
Nesse momento, uma sombra de medo passou pelos olhos de Andra, ao ver Ray se afastar, ansioso para sair de l, antes que sucumbisse aos encantos daquela mulher e voltasse para agarr-la ali mesmo.
Andra apenas viajava com ele, e tudo devia permanecer dessa maneira.
Ao entrar no caminho, Ray percebeu que tinha um pedao de papel higinico grudado no sapato, o que serviu para aumentar ainda mais a raiva que sentia de si mesmo e de toda a incrvel situao pela qual estava passando.
Ray esfregava a cabea com vigor, fazendo o xampu espumar, na tentativa de aplacar a ira que o dominava. Fora ela quem invadira sua cabine e fora ela quem insistira em viajar com ele. No tinha sido sua ideia.
Por que razo Andra ficara parecendo um gatinho ferido quando lhe informara que o horrio era mais importante que ela?
Por que ento Ray estava sentindo-se to mal com a discusso que tiveram?
A pergunta era um desafio para Ray, que ps a cabea embaixo do chuveiro determinado a tirar dela no s o xampu, mas tambm a imagem de Andra magoada, olhando para ele com aqueles lindos e grandes olhos castanhos.
Quando chegou ao caminho, ela j se encontrava sentada no lugar do passageiro, os joelhos dobrados perto do peito. O jornal com a fotografia da filha do ilustre senador estava dobrado sobre o banco, ao lado dela. Portanto, j sabia como ele tomara conhecimento de sua identidade.
Andra tinha feito caf na pequena cafeteira eltrica e segurava uma caneca. Vestia o jeans e a camisa azul que Ray vira sobre um dos bancos do vestirio. A camisa, masculina, ficara bem nela. e os cabelos ainda molhados encostavam nos ombros, umedecendo o tecido de algodo. No usava nenhuma pintura, e Ray notou que no precisava de tal artifcio. Pelo contrrio, parecia ainda mais atraente que na vspera, comprimida no vestido de noiva e maquilada com finos e caros cosmticos. Agora parecia natural, como uma daquelas modelos que fazem comercial de sabonete.
Essa observao o fez lembrar-se de Andra envolta por apenas uma toalha exgua, e achou que essa imagem ficaria impressa em sua memria por muito tempo ainda.
Suspirou e entrou na boleia. Andra continuou olhando para a frente, tomando goles de caf e agindo como se ele no existisse, Com a mo livre, acariciava a cabea de Rex, que, para sua surpresa, aceitava o afago.
O cachorro no permitira ser acariciado desde que Andra entrara no caminho, e o fato de o animal t-la aceito como companheira de viagem deixou Ray muito aborrecido.
Rex no tinha lealdade? No era isso o que se dizia a respeito de ces.
Bateu a porta com fora, despertando a ateno de Andra. que olhou para ele com uma expresso de orgulho e de preocupao.
Sua conscincia deu-lhe uma ferroada de novo. Deveria se desculpar com ela? Tinha sido muito cruel ao permitir que Andra pensasse que iria embora deixando-a para trs?
	Quer tomar o desjejum?  foi o mximo que Ray conseguiu dizer.
	Estou bem.
Ray j presenciara o apetite que Andra tinha, e por isso a resposta soou como um insulto.
	Tambm no estou com fome.
Ray ligou o motor, e partiram.
Ray parou o caminho perto de uma enorme loja de departamentos, nos arredores de Knoxville, quase na divisa dos dois Estados.
Pararemos aqui para que voc possa comprar algumascoisas de que est precisando, Andra.
	Voc no tem de fazer isso.
	Precisa de algumas roupas. No pode continuar usando as minhas at chegarmos  Califrnia.
	Para mim est tudo bem.
Ray se aborreceu. Primeiro, ela recusara o caf da manh; agora, dizia no querer comprar roupas. Exasperado, soltou um suspiro.
	Eu lhe disse que a levaria a algum lugar para comprar roupas e outras coisas de que precisasse, e  o que vou fazer.  Olhou para ela, para se certificar de que estava prestando ateno ao que ele dizia.
	No  necessrio. 
	Verdade? No tem nada para vestir a no ser aquele detestvel vestido de noiva. Deve querer algumas roupas que lhe sirvam, sapatos confortveis, maquilagem...
	Est querendo dizer que estou precisando de um pouco de pintura?
	No, no  isso.  As coisas no estavam saindo como ele planejara.  Vai me acompanhar para procurar as roupas?
Andra ergueu as sobrancelhas, mas no respondeu.
	Olhe, voc precisa disso. Aqui tem uma loja.
	No quero ser um incmodo  Andra falou com hostilidade, parecendo mais interessada em admirar as prprias unhas do que em sair do caminho.
Ray suspirou, denotando impacincia. Mas, sabia que lhe devia desculpas. Alis, ambos sabiam.
	Olhe... a respeito de hoje cedo...
Andra olhou para ele, esperando que continuasse.
	Eu... voc sabe que no a deixaria sozinha.
	Oh, verdade?  Andra no pareceu impressionada com as palavras dele.
	Sim, . No sou nenhum imbecil.
	E eu no sou uma pobre menina rica.
	Ento por que age como se fosse, fugindo de seus problemas e culpando todas as outras pessoas, menos a si mesma, por sua vida no estar transcorrendo como gostaria?
	E voc, por que age como um imbecil se no , gritando ordens e ignorando os sentimentos dos outros?!
Ray achou que haviam chegado a um impasse.
Espere um minuto.  Ergueu a mo para tentar acalmar-se e acalm-la tambm.  Podemos discutir uma coisa de cada vez?
Andra cerrou os lbios e no disse nada.
Tudo o que quero dizer  que sinto muito por t-la deixado pensar, mesmo por um minuto, que eu partiria sem voc. Manter meu horrio  importante, mas jamais a abandonaria sozinha, sem dinheiro e sem roupas para trocar.
No podia e no queria acrescentar que o horrio no fora a nica coisa que o deixara tenso naquele manh, mas sim a preocupao de ter acordado e no t-la encontrado que o desequilibrara. No esperava sentir-se daquela maneira, e por isso no conseguia entender o que se passava consigo.
	Obrigada.  Andra fitou-o, um pouco surpresa e incerta de como deveria responder a seu pedido de desculpas.
 Sinto muito, tambm. No tive a inteno de estragar sua manh.
	Ento, est bem.  Ray soltou um suspiro de alvio e indicou o shopping com a cabea.  Que tal irmos agora at as lojas?

CAPITULO VII

	Est com fome, Andra?  Ray perguntou, enquanto dirigia entre filas de caminhes, estacionados em mais uma rea de descanso. Ao redor, o sol punha uma cor avermelhada na paisagem deserta. Tinha dirigido bastante desde o dia anterior e fizera um tempo muito bom, chegando ao Novo Mxico, no Texas, antes do crepsculo.
Andra notou que Ray estava de timo humor e tambm ficou satisfeita.
	Faminta! Comeria qualquer coisa, menos outro sanduche de pasta de amendoim.  Pelo que observara, esse era o principal item da dieta de Ray na estrada.
	Ei, o que h de errado com isso? Um pote de pasta de amendoim  o melhor amigo de um caminhoneiro.
Andra riu e olhou para ele. Estaria provocando-a? Seria ela pssima companheira de viagem?
Desde as compras na loja de departamentos, na vspera, a tenso entre os dois diminura bastante. Ray continuava em guarda, mas no a agredia mais.
Da parte dela, havia "perdoado" algumas coisas que ele lhe dissera, como cham-la de pobre menina rica. Isso magoava, sobretudo vindo de uma pessoa como Ray.
Mas Ray se desculpara, e ponto final. Andra no iria mais pensar a respeito. Achava tambm que o truculento caminhoneiro tinha qualidades que no deixava transparecer. Parecia ser um pessoa sensvel. Tinha quase certeza disso.
Pasta de amendoim  o melhor amigo de um caminhoneiro, Ray? Por favor, pare. Voc est me assustando. 
Ele desligou o motor, ergueu uma das sobrancelhas e olhou para ela.
	Pensei que s temesse se jogar de uma ponte com o tornozelo amarrado por um elstico.
	Pode acrescentar mais uma coisa a minha lista: tenho medo de ter de comer mais pasta de amendoim nas prximas duas mil milhas.
Ray deu uma boa risada, sonora e sexy, que despertou estranhas sensaes em Andra.
Ela mordeu o lbio, pensando, mas sem mencionar, que o bom humor de Ray tambm deveria fazer parte da mesma lista.
	Eu lhe avisei que uma viagem longa como a que estamos fazendo no iria ser agradvel como um piquenique, Andra.
	No imaginei que voc fosse to realista!  Sorriu.
	Est bem, est bem. Que tal um churrasco hoje  noite? Tenho em minha pequena cozinha tudo o que  necessrio para fazer hambrgueres, e tambm um bom molho especial.
A rea de descanso tinha mesas e churrasqueiras, e um casal j ocupava uma delas, preparando sua refeio. Via-se apenas mais um caminho ali perto, e Andra sups que fosse daquelas pessoas.
	timo, Ray!  alguma receita secreta?
	. Se quiser comear a tirar os utenslios, porei Rex para tomar conta enquanto telefono para Zach.
	Certo, voc manda, patro.
Ray a observou abrir a cortina e entrar no quarto. Notou que seus quadris eram arredondados e pareciam bem moldadas pelo short novo.
Sentiu uma pontada e um calor no abdome, desviou o olhar e notou a boca seca de repente. Abriu a porta do caminho e praticamente se jogou para fora, batendo a porta logo que chegou ao cho.
Levou quase um minuto para lembrar-se de pegar Rex.
Ol!
Andra se virou na direo da voz, enquanto arrumava tudo para o piquenique, e viu a mulher que estivera ocupando a mesa vizinha se aproximando. Tinha cabelos negros ondulados que chegavam at a cintura. Usava jeans um pouco apertado para as formas opulentas e exuberantes, mas tinha um simptico sorriso e olhar sincero. Parecia ter a mesma idade de Andra.
	Meu nome  Gina Hollister.  Olhou para o homem alto e forte que se ocupava em pr salsichas em um espeto, perto da churrasqueira, usando uma camiseta regata que punha em evidncia os bceps desenvolvidos.  E aquele  meu marido, Freddie.
	E sou Andra. Muito prazer, Gina.
	Aquele  seu homem?  Apontou Ray, que estava ao telefone, com Rex a seus ps.
"Meu homem?!"
Por um minuto, Andra ficou sem saber o que responder.
	Ele no ... Ns no somos...  Sentiu-se ruborizar, sem saber como explicar o relacionamento entre ela e Ray. No queria que o episdio com Marge, a garonete, se repetisse.  No somos casados ou alguma coisa desse tipo. Somos apenas amigos.
	E amiga daquele sujeito lindo?! Como consegue?!
	Estamos apenas viajando juntos.  verdade, pode acreditar.  Andra mordeu o lbio, sentindo-se desconfortvel com o adjetivo com que Gina definira Ray.  No estamos envolvidos. Para dizer a verdade, nem nos damos muito bem.
	Hum...  Gina olhou-a, intrigada, como se Andra fosse um quebra-cabea que precisava montar.  Bem, vocs querem jantar conosco?
Andra observou Ray mais uma vez, que j tinha desligado o telefone e se aproximava com Rex sempre a seu lado.
	Ray pretendia assar alguns hambrgueres  disse, devagar.
	Otimo. Freddie vai assar salsichas. Podemos unir as refeies.
Ray chegou, Gina se apresentou, e os trs levaram suas coisas para a mesa dos Hollister.
Logo depois, dois outros caminhes estacionaram, e Gina e Freddie convidaram os respectivos caminhoneiros, que tambm trouxeram o que pretendiam comer, para se juntar a eles.
Enquanto os homens cuidavam da churrasqueira, Gina e Andra se puseram a conversar. De quando em quando, Andra olhava para Ray, que conversava com os outros rapazes, como se ele tivesse alguma aura secreta que s ela conseguia enxergar.
Quando seus olhares se encontravam, Andra sentia o corao acelerar. Ray lhe endereava aquele sorriso fabuloso e, por apenas um segundo, ela sentia como se os dois estivessem sozinhos naquela "festa".
Apenas os dois... no universo.
A voz de Gina quebrou o encantamento:
H quanto tempo vocs dois no esto envolvidos?
Andra ficou um pouco sem graa, pois era bvio que a mulher no acreditara nela.
	Faz pouco. Como lhe, falei, no nos entendemos muito bem.
	Esto brigados, ento?
Fale-me de voc e Freddie.  Andra mudou de assunto.
Gina mordeu a isca e comeou a falar sobre ela e o marido.
Freddie e eu estamos juntos desde a jnona srie do primeiro grau.  Fitou o marido com um sorriso doce nos lbios. - Foi amor  primeira vista. Estamos casados desde que terminamos os estudos.
Isso  muito bonito! E ele viaja muito?
Gina aquiesceu com a cabea.
Sim, e sinto muita falta dele quando est viajando.
Por isso, s vezes viajo junto.  divertido passear de caminho de vez em quando, mas no sei como Freddie aguenta fazer isso o tempo todo.  muito cansativo. Mas cada profisso tem os seus percalos, no  mesmo? Graas a Deus temos nosso prprio veculo, e ele ganha o suficiente para sustentarmos nossa famlia com conforto. Sem suprfluos, mas com o necessrio para ter uma vida digna.
Andra lembrou-se de quando Ray lhe dissera que a vida de caminhoneiro no era fcil e de todos os anos em que levara esse tipo de vida.
	Creio que  preciso ser uma pessoa especial para ser capaz de se casar com um caminhoneiro.
	Sim,  verdade. Eles so solitrios na maior parte do tempo. E muito independentes.
Andra pensou que era realmente uma boa definio para Ray: independente e solitrio. No precisava de ningum.
Bem, nem ela.
Virou-se para Ray mais uma vez, e seus olhares se encontraram por um segundo. Uma corrente eltrica pareceu percorrer-lhe a espinha, lhe dizendo que ela estava mentindo. Era mentira que no precisava de ningum.
E essa constatao a assustou.
	O que tem a dentro?  Freddie quis saber quando Ray ps o molho sobre a carne, que comeou a alisar com as costas de uma colher de plstico.
	Molho de pimenta com cebolas e ervas prprias para carne assada.  minha receita secreta.
Freddie deu um longo assobio. Os outros dois homens, Joe Potter e Rawley Hobart, o acompanharam.
	As mulheres vo mat-lo  Joe avisou. Era um homem alto e um pouco fora de forma. Estava viajando havia vinte dias e disse-lhes que tinha esposa e cinco filhos no Alabama.
	Andra, no.  Ray observou-a.  E uma garota que aprecia aventuras e coisas novas. Acho que gostar.
	Oh,  claro! Todas elas tm esprito aventureiro antes de se casar  Freddie observou.
Ray achou que Freddie estava apenas brincando, porque dissera-lhe algumas coisas a respeito de Gina que o fizeram pensar que o casal se dava muito bem.
Isso no me preocupa, Freddie. No pretendo me casar. Quero ser livre.
Todos riram da afirmao de Ray, e Freddie caoou:
	Ah, sim, acreditamos!
	O que o faz dizer isso?  Ray ficara curioso de ter provocado uma gargalhada coletiva.
Freddie meneou a cabea e olhou para ele como se Ray fosse apenas urn jovem aprendiz.
	Olhe para ela!  Indicou Andra com a cabea.  Nenhum camarada poderia respirar e andar em linha reta se deixasse uma garota dessas escapar.
	Andra e eu somos apenas amigos. No cabe a mim deix-la escapar ou no. Ela no  minha.
	No?  Rawley interveio, dando uma olhada em Andra.
O rapaz era jovem, talvez da idade de Andra, calculou Ray. Era magro e tinha cabelos longos e escuros.
Ray no gostou do modo como Rawley fitou Andra, como se quisesse t-la como sobremesa, ou algo parecido.
	 verdade.  E acrescentou, srio:  E Andra tambm no quer se casar.
Mais uma vez, sentia desejo de proteg-la. Tentou afastar esse tipo de sentimento dizendo o oposto do que sentia:
	Estou apenas ajudando-a, dando-lhe uma carona. E isso  tudo.
	Hum...  foi a resposta de Rawley, que, um minuto depois, se afastou da churrasqueira e se aproximou das moas.
Ray ficou observando-o sentar-se perto de Andra e iniciar uma conversao. Sentiu um calor subir-lhe pelo corpo, das pernas at a raiz dos cabelos, e teve uma sensao muitssimo desagradvel.
Ficou ainda pior quando viu o rapaz pegar a mo dela e beij-la. As faces de Andra ficaram vermelhas, e ela afastou os dedos, mas no muito depressa. No rpido o suficiente, na opinio de Ray.
Resolveu ignor-los. Ou, pelo menos, tentar. Voltou a ateno aos hambrgueres na brasa. As chamas aumentaram quando virou a carne.
Freddie e Joe falavam sobre alguma coisa, mas Ray no prestava ateno. S o que ouvia era a risada cristalina de Andra em resposta a alguma coisa que Rawley tinha dito.
Ray retesou a mandbula. No se importava. Ela poderia flertar com todos os Rawley que quisesse. No tinha nada com isso.
Jogou uma salsicha para Rex, que comeu, satisfeito. Do que mais precisava, alm de Rex? O cachorro lhe bastava.
J no havia aprendido uma dura lio? Mulher  sinnimo de problemas.
Mas com ces sempre se pode contar. So fiis e amorosos.
Nesse exato momento, Rex foi para perto de Andra e deitou-se a seus ps. Ela se curvou para acarici-lo e logo em seguida riu mais uma vez do que Rawley falava.
O estmago de Ray comeou a doer. Vira o suficiente.
 A comida est pronta!  gritou, na esperana de acabar com aquela cena, que tanto o incomodava.
Quando todos terminaram de comer e a mesa fora limpa, Joe foi at o caminho e trouxe um violo.
O sol j se tinha posto, dando lugar a uma noite quente, mas agradvel. A rea de descanso estava quieta, e a lua prateada imprimia uma sensao de paz ao ambiente, apesar do som dos veculos passando sem parar pela rodovia.
Joe comeou a tocar e a cantar uma balada country, e Andra sentiu que Rawley passava um dos braos ao redor de seus ombros. Ento, discreta, se afastou um pouco, fazendo com que ele tirasse o brao.
Parecia um rapaz decente, e Andra percebera que estava interessado em flertar com ela. Por isso, precisava ter cuidado para no encoraj-lo, pois no estava nenhum um pouco interessada. Apesar de Rawley ter boa aparncia e ser educado, no se sentia atrada. Ser fiel  deciso de no se envolver com ningum era fcil em se tratando dele.
Andra olhou para Ray, sentindo-se desconfortvel. Por que razo ficava insegura quando o fitava? Esse tipo de sentimento no fazia sentido.
Notou que Ray estava muito srio, com os lbios cerrados e uma fisionomia carregada, como se estivesse preocupado.
Tinha se comportado de maneira estranha durante toda a noite, mas Andra no conseguira decifrar o motivo. Estivera to bem-humorado quando chegaram, mas agora...
Como se tambm tivesse percebido, Joe comeou a entoar uma melodia mais alegre e movimentada, e Gina e Freddie levantaram-se para danar.
Quer dar-me a honra? : Rawley falou ao ouvido de Andra.
Ela olhou para Ray. Gostaria que fosse ele a convid-la. O que havia de errado com ela? No entendia os sentimentos controvertidos que a vinham dominando.
Sim, Rawley.  Forou um sorriso.
No estava mais interessada em Ray do que em Rawley, lembrou a si mesma. Sentiu um leve enjoo, que atribuiu  m digesto.
	Mas no sei danar.  Andra olhava para Gina e Freddie.
	Eu ensino.
Rawley levantou-se e deu a mo a ela.
Na realidade, Andra no queria danar com ele, mas, se isso ajudasse a afastar o pensamento de Ray, valeria a pena. Deixou-se conduzir pelo caminhoneiro at uma clareira entre as mesas.
O descontentamento de Ray crescia  medida que observava Rawley passar o brao pela cintura de Andra e comear a ensin-la a danar. Ela tentava acertar os passos de acordo com os do companheiro e ria muito, o tempo todo.
Ray sentiu uma dor no estmago. Teria posto molho demais na carne? No deveria, talvez, ter comido o segundo hambrguer. Decerto no estava contrariado por Andra estar danando com Rawley. Seria estpido. Que lhe importava o que ela fazia ou deixava de fazer?
Andra errava o passo, pisava em Rawley e ria. Estava se divertindo muito.
Ento, Rawley comeou a gir-la, deixando-a sem respirao e sem foras para continuar rindo.
Ray no podia mais aguentar. Olhou em outra direo e viu que Gina e Freddie danavam bem agarradinhos, como se estivesse sozinhos, um s prestando ateno ao outro.
Deu um longo suspiro e observou a estrada. Sentiu vontade de ir para a boleia, mas no lhe agradava a ideia de deixar Andra sozinha com Rawley. Outra vez aquele desejo de proteg-la, que o irritou demais. Disse a si mesmo que era um sentimento fraternal. Sim, essa era a palavra correta: fraternal. Sentiu-se melhor pensando dessa maneira.
Joe comeou a interpretar uma suave e terna cano, e Andra achou que Rawley estava mais interessado em segur-la do que em ensin-la a danar, pelo modo como a puxava em direo de seu corpo. E isso comeou a zang-la.
	Acho que  melhor nos sentarmos um pouco, Rawley.
	Ah, no, querida, s mais um pouco!
	Est bem, s mais uma.
Rawley estreitou-a de encontro ao peito, e seus ps mal se moviam. Andra sentia-se sufocar.
Tentou de desvencilhar, mas Rawley a segurou ainda mais. Seus dedos corriam ao longo da coluna de Andra at a cintura, e em seguida um pouco mais para baixo. De repente, acariciou suas ndegas.
Antes que tentasse ir mais longe, Andra pisou-lhe no p com tanta fora que ele gritou e se afastou, mancando de dor.
Por que fez isso?!
- Voc deve saber muito bem por qu!  Andra falou alto. Ray apareceu como um raio.
Deixe a moa sossegada.
Andra olhou para Ray e jurou ter visto chamas sarem de seus olhos quando ele olhou, furioso, para Rawley.
Joe parou de tocar, Gina e Freddie pararam de danar. Todos ficaram olhando, estarrecidos, para Rawey e Ray.
	Espere a, amigo, isso no  de sua conta...
	E se eu disser que sim, que  de minha conta?  Ray replicou, chegando mais para perto do rapaz.  Afaste-se, Andra, eu cuidarei deste idiota.
Os dois homens se encaravam, irados. O pomo-de-ado de Rawley subia e descia enquanto ele engolia em seco, e o rosto de Ray parecia uma mscara de granito.
Andra ficou um momento sem faia, para logo em seguida gritar:
Esperem um minuto!  Ps as mos sobre os quadris e olhou primeiro para Ray.  Obrigada, mas eu sei me cuidar.
Ray, surpreso, arregalou os olhos e a encarou. Ela ergueu o queixo e falou ainda mais alto:
	Portanto, afaste-se.
Depois de alguns segundos, Andra se ps a pensar se no reagira com exagero, mas concluiu que agira bem. No precisava que Ray a defendesse e se intrometesse em sua vida. No queria que mais ningum lhe desse ordens e lhe dissesse o que tinha de fazer. Cansara de sufocar sua prpria personalidade por causa da vontade alheia.
Ento, ps o dedo em riste no rosto de Rawley.
	E voc, como se atreve?! Pensei que fosse um rapaz decente. Voc  um... ordinrio!
Antes que qualquer um dos dois homens pudesse formular uma resposta, deu-lhes as costas e se afastou.
Ray foi atrs dela, um tanto confuso. Quando olhou para trs, viu Rawley dirigindo-se para o caminho. Apressou-se, tentando alcan-la, com Rex logo atrs.
	Ei, Andra!
Ela o ignorou, entrou na cabine e bateu a porta.
Rpido, Ray prendeu Rex na carroceria e tambm subiu na boleia, fechando a porta.
Andra estava sentada no lugar do passageiro, com os lbios cerrados, olhando fixo para a frente.
	Qual  seu problema, Andra?
Fora em seu socorro para defend-la das garras de Rawley, e ela tivera a audcia de, em vez de agradecer, mand-lo se afastar!
Definitivamente o mundo estava de pernas para o ar.
	Meu? Qual  o seu problema, gostaria de saber.  Olhou para ele com raiva.  No confia em mim? Eu tinha a situao sob controle.
	Sob controle? No parecia!
	Voc no me deu chance!
	Do que est falando? O sujeitinho quase a atacou, e voc queria que eu permanecesse sentado, apreciando?
	Rawley no estava me atacando, Ray. Tentou me agarrar, uma s vez, e eu o coloquei em devido lugar. No foi grande coisa.
Ray encarou-a, estarrecido, e Andra devolveu o olhar com a mesma intensidade.
	Olhe, eu estava apenas tentando defend-la. E algum crime?
	No pedi sua ajuda.
E eu deveria esperar que pedisse?Ray meneou a cabea, frustrado.  O certo seria ficar sentado, bem calmo, vendo uma pessoa que prezo ser atacada por um cretino qualquer?
Fez-se total silncio na cabine. Os dois continuaram se olhando, mas ningum dizia nada.
Ray engoliu em seco. Por qu, Deus do cu, dissera semelhante asneira?
Andra olhava para ele com uma expresso atnita, como se Ray tivesse um terceiro olho na testa, como se fosse um ser extraterrestre.
Sentiu-se um completo idiota.
	O que voc disse?  Andra perguntou, quando recobrou a fala.
	Nada, no disse nada. Esquea.
E saiu do veculo.
CAPITULO VIII

Andra ficou chocada pelo modo como Ray bateu a porta do caminho.
Sentada, sozinha, ouvia as ltimas palavras dele reverberarem em sua cabea: "algum que eu prezo"...
Ray se preocupava com ela?
Sentiu o corpo ser percorrido por um arrepio quente, e um sorriso aflorou em seus lbios. Seria verdade? Apesar das reclamaes dele e de todas as contrariedades que lhe trouxera, Ray se importaria mesmo com o que pudesse lhe acontecer?
Poderia pensar que ele correra em sua defesa no apenas para contornar uma situao desagradvel, mas por cime? Teria sido trado por seus prprios sentimentos e reagira num impulso?
E Andra o rejeitara, dizendo que no precisava da ajuda de ningum!
O sorriso desapareceu, e ela gemeu, falando consigo mesma:
 Oh, Deus, o que foi que eu fiz?!
Confusa, no sabia o que fazer e no que acreditar. Fechou os olhos na esperana de que algum sinal mgico lhe mostrasse se estava iludida ou se o que Ray sentia por ela era verdadeiro e mais do que simples solidariedade.
Se no fosse, ficaria muito triste, e tinha medo de ser magoada mais uma vez.
Abriu os olhos e fixou o olhar na escurido que rodeava o caminho. Nada sobrenatural aparecera escrito no cu nos ltimos trinta segundos. Continuava sozinha.
Suspirou. Com cuidado, abriu a porta da cabina e desceu. Ao redor, tudo estava deserto. Gina, Freddie e Joe haviam se recolhido aos respectivos veculos. O caminho de Rawley no estava estacionado nas imediaes. Pelo jeito, j pegara a estrada.
Deu a volta e encontrou Ray sentado sobre um dos enormes estepes do veculo, com Rex a seu lado. Parou perto e murmurou:
	Ray?
	O qu?  Ele nem sequer se moveu para olh-la.
Andra, indecisa e insegura, no saiu do lugar. Depois de alguns segundos, respirou fundo e, por fim, conseguiu balbuciar:
	Voc acha que podemos conversar?
Ray ergueu os ombros, denotando indiferena. Ainda lutava para entender por que pronunciara aquelas palavras comprometedoras de pouco tempo atrs. Seria verdade que se preocupava com aquela mulher linda e complicada demais? No sabia nada sobre Andra, a no ser que fugira no dia do casamento, deixando o noivo plantado no altar.
A situao toda era absurda e ilgica. Em que tipo de idiota se transformara? Andra aparecera de repente, do nada, e, na certa, desapareceria do mesmo modo. Eram de mundos diferentes. No tinham nada em comum.
E no queria, de maneira nenhuma, se envolver com ningum, Precisava se lembrar disso para no se deixar enganar, no s por Andra, mas tambm por seus prprios instintos. Era bastante feliz sozinho, no era?
Assim mesmo, pronunciara aquelas palavras impensadas.
Andra se aproximou e parou na frente dele, que ficou de cabea baixa, olhando para seus delicados ps, calados com as sandlias de couro que comprara no shopping e que pareciam ter sido feitas para torn-la mais sensual e sexy.
Por que, em nome de Deus, no a fizera comprar um par de botas que no deixassem seus dedinhos  vista? Por que aquela mulher o perturbava daquela maneira?
	Voc se importa se eu me sentar aqui?  Andra apontou para o pneu onde ele estava sentado.
	Se quiser, tudo bem. Para mim, tanto faz.  E tornou a dar de ombros.
Andra se ajeitou ao lado dele, e, conforme se sentou, seus quadris encostaram em Ray, que, cauteloso, se afastou um pouco.
O silncio entre os dois era constrangedor.
	Acho que me excedi, Ray.
	No se preocupe. Voc tinha razo. Eu no deveria ter me intrometido.  adulta, e poderia at j ser uma mulher casada.
Era evidente que Ray no estava de bom humor.
	Desculpe-me. Talvez tenha exagerado.
	Talvez?!  Ray olhou-a, admirado, esperando uma resposta, e aliviado por Andra no perguntar sobre o significado de suas ltimas palavras.
Andra olhou-o, em seguida desviou o olhar para baixo, mas no antes que Ray pudesse perceber a expresso de medo no olhar dela.
Estaria com medo de qu? Ray no entendia mesmo aquela garota. Pouco tempo atrs, reagira como uma leoa protegendo sua cria, inflamada e corajosa, e agora parecia vulnervel e fraca.
Andra o fazia sentir-se inseguro o tempo todo. Esse devia ser o motivo de ele dizer coisas ridculas e sem sentido.
	Sim, Ray. Talvez.
	Voc no parece saber o que diz.
	Minha vida  como um trem desgovernado.  Encarou-o.  Como posso ter certeza de alguma coisa?
	No sei. No a conheo, no sei nada a seu respeito para poder formar uma ida.  Ray ainda no entendia a razo de Andra ter reagido contra sua interferncia.  Eu estava apenas tentando ajud-la, como faria com qualquer mulher que estivesse numa situao semelhante.
	No queria sua ajuda.
	Por qu?  Ray continuava a sentir que havia alguma coisa que poderia explicar a reao dela.
E queria saber o que era. Precisava saber.
	No posso explicar  Andra falou, com voz abafada pela emoo.
	Sim, voc pode.
	No posso!
Andra deu alguns passos, cruzou os braos sobre o peito e ficou olhando para a estrada, quela hora com pouco movimento. Ray levantou-se e foi at ela.
	Andra...
	Deixe-me s.
	No, no vou obedec-la.
Andra no queria olhar para ele. Continuou a fitar ao longe.
Ray a segurou pelos ombros, virando-a com gentileza para que o encarasse. Segurou-lhe o queixo e ergueu-o. Ela no teve escolha, a no ser encar-lo.
Seus olhos escuros brilhavam com incerteza e medo.
Ray baixou o brao. No sabia o que fazer para no se envolver demais. O melhor seria voltar logo para o caminho e encerrar o assunto antes que dissesse ou fizesse alguma coisa de que se arrependesse mais tarde.
Mas Andra parecia to assustada e to carente que no teve coragem de deix-la sozinha. Afinal, disse como que para convencer-se, era normal que se preocupasse com o que poderia acontecer com ela. Isso no indicava nenhum envolvimento pessoal. Era apenas solidariedade. Andra viajava com ele, a seu lado. Era sua passageira, e Ray tinha certa responsabilidade. Preocupar-se com algum no era a mesma coisa que gostar dessa pessoa. Eram coisas bem diferentes.
Sentiu certo alvio e voltou a prestar ateno  mulher diante de si.
	Do que est fugindo, Andra?
	No estou fazendo isso!
	 claro que est.  A frustrao de Ray aumentou.  A pobre menina rica foge de sua gaiola dourada!
	Pare de me chamar desse jeito!
	Pare de agir desse modo.
	No estou agindo como uma coitadinha, como quer me fazer crer. Voc no tem ideia...  Parou de repente.
	Estou escutando. Do que no tenho ideia? Fale.
	No quero.  Andra estava nervosa e trmula.
	Olhe, eu a aceitei sem nem mesmo saber seu nome completo. No acha que  chegada a hora de me dizer exatamente o que est acontecendo?
No julgava estar pedindo muito. Andra se aproximou.
	Est bem, Ray. Ento  isso. Voc me ajuda, e por esse motivo fico em dbito.
	Nunca lhe disse que me deve alguma coisa.
	Mas sua atitude demonstra o contrrio.
Ray se sentia mais frustrado a cada segundo que passava.
	Est bem, Andra. Esquea o que perguntei. Esquea tudo que por ventura eu tenha lhe perguntado.  E se afastou em direo  boleia.
	Ray, espere! No v!
Agarrou o brao dele com os dedos delicados, mas com firmeza.
Ray se virou e deparou com Andra olhando fixo para ele, com os lindos e luminosos olhos marejados de lgrimas.
	O que foi? Voc no sabe o que quer. No quer falar, mas no me deixa ir dormir. Estou cansado!
	Eu... E que...  Parou, estreitou os lbios e suspirou.  Voc ainda no entendeu, Ray? No quero me envolver com ningum, no quero ser ntima de ningum.
	Por que no?  Continuava a pression-la para que se abrisse.
	No importa o motivo.
	Sim, importa para mim. No tenho o hbito de aceitar as coisas que no consigo entender sem contestao.
	Por qu? Que importncia isso pode ter para voc?
Ray permaneceu olhando para Andra sem saber o que responder. Mas tinha certeza de que tudo a respeito de Andra importava, porm, para seu prprio bem, no poderia traduzir isso em palavras.
Mas tambm estava farto de se fazer de desentendido. Deus, que dilema!
O motivo  este. - Ray pegou-a pelos ombros, puxou-a em sua direo e beijou-lhe os lbios, extravasando todo o desejo que o consumia desde a primeira vez em que pusera os olhos nela.
Andra entreabriu os lbios, permitindo que ele tivesse acesso a toda a sua doura.
Ray ps a lngua dentro da boca de Andra como se fosse devor-la, e foi correspondido com a mesma intensidade. Ela gemia, suave, o que aumentava o desejo dele. Andra abaixou os braos, e Ray a envolveu por inteiro, sentindo-lhe o corpo trmulo ser subjugado por ele.
Andra passou os braos ao redor do pescoo de Ray para, em seguida, mergulhar com selvageria os dedos nos cabelos espessos.
Os corpos se ajustavam com perfeio.
Ray desviou os lbios da boca para o pescoo de Andra. Cobriu-a de beijos.
Andra arqueava-se para receber as carcias, pedindo mais com cada tremor, cada gemido, toda ela ansiando por ele, dominada pela paixo e pela sensualidade do momento.
Ray no queria parar, mas em algum lugar, no recesso de sua mente, onde ainda podia pensar, sabia que devia, que precisava parar. Estava febril e temia que em mais outro minuto no seria mais responsvel por seus atos, no conseguiria mais se controlar.
Afastou-se, soitando-a. Estava sem flego, tentando recuperar o flego, aspirando o ar da noite e sentindo o peito apertado e dolorido.
Apesar da pouca claridade da madragada, via os olhos dela brilharem, vulnerveis, porm, chocados. Ofegante, Andra levou uma das mos aos lbios e permaneceu imvel, observando-o sem nada dizer.
	E por isso que importa, Andra  sussurrou.  Entendeu agora?
Andra deu um passo para trs, vacilante, como se estivesse bbada, sem controle sobre as pernas. Sim, estava embriagada por Ray, inebriada por seus beijos.
Lutava para entender o que acabara de acontecer. Ele a abraara com tanta intimidade, beijara-a com intensidade, e ela no s permitira como correspondera, como se estivesse prometendo coisas que nem sabia que desejava.
Nenhum homem despertara uma resposta to profunda de sua parte. Andra nem sabia que era capaz de uma resposta desse tipo. Mas era, e fora Ray quem a fizera descobrir isso, e tal constatao a deixou sem fala e sem ao.
No conseguia falar, e quase nem respirar.
De sbito, disse, num tom de voz mais alto que o normal:
  No deveramos ter feito isso, Ray.  Cruzou os braos sobre o peito, numa tentativa de se controlar e parar de tremer.
 Por que no?
 Porque... Porque concordamos em...
 Concordamos com o qu?
 Temos a mesma opinio sobre amor, casamento e coisas desse tipo.
Ainda no tinham conversado sobre o que Ray dissera,  que se importava e se preocupava com ela. E Andra achou  mais seguro no mencionar isso, pois era perigoso demais.
 Por que complicar nossas vidas com algo que no pode nos levar a lugar nenhum, Ray? Isso  loucura!
No. No acho que seja. O fato de ambos concordarmos que isso no nos levaria a lugar nenhum  que d coerncia e validade  situao. No h nada de complicado.
Tudo parecia ficar claro e simples para ele, mas precisava faz-la entender.
No temos de nos sentir pressionados, Andra, e no h necessidade de fingirmos que no estamos atrados um pelo outro.
Ray estava cansado de fingir. A atrao que sentia por Andra era irrefutvel, e trat-la como a um fruto proibido s tornava a situao pior. Era hora de tentar uma nova conduta, uma maneira diferente de agir, e encarar a realidade.
Atrados?  Andra repetiu.  Atrados!  muita arrogncia de sua parte afirmar que estou atrada por voc! Como se eu tivesse escolha. Voc me agarrou!
	No  verdade!  Ray retrucou, furioso.  Voc queria me beijar tanto quanto eu queria beij-la. No pode negar que est se interessando por mim.
	Posso, sim. Voc est errado.
	No acredito que esteja discutindo comigo tambm a respeito disso! Temos de discutir a respeito de tudo?
	Sim!  E, de repente, Andra comeou a chorar.
De imediato, a raiva de Ray se desvaneceu.
	No chore...  Aproximou-se dela e passou a mo por seu rosto, para enxugar-lhe as lgrimas.
	No estou chorando.  Andra afastou a mo dele com os dedos trmulos.  Estou bem. No precisa se preocupar.
	 claro que est! Por isso resolveu fugir no caminho de um desconhecido. Porque est bem.
	Certo! Ponto para voc.  Soluou.
	No tive inteno de aborrec-la.
	Teve, sim, mas no  culpa sua. E...
	 o qu?
	No sei.  Soluou de novo.  Estou um pouco estressada.  E deu um sorriso molhado de lgrimas.
Ray ps a mo, gentil, nas costas dela e a conduziu de volta ao veculo. Entraram e sentaram-se na cabine, mais uma vez.
	Do que voc estava correndo na tarde do seu casamento?  Ray quis saber, depois de alguns minutos. Se quisesse entender o motivo do estresse de Andra, teria de voltar um pouco no tempo.  No era apenas do casamento, era?
Andra ficou quieta durante vrios minutos.
	No, no era  confessou.
	Do que era, ento?  Ray sentia que, enfim, iria obter algumas respostas.
	Acho que de toda a minha vida.  O olhar dela estava fixo na escurido.  Passei muito tempo tentando ser outra pessoa.
	No estou entendendo.  Ray curvou-se e aproximou-se mais para prestar ateno a tudo que ela por ventura viesse a dizer.
Andra cruzou os braos e comeou a falar:
	Passei vinte e cinco anos lutando comigo mesma e tentando me conformar, procurando ser a filha que meus pais queriam que eu fosse. E falhando sempre.
Ray olhava o perfil de Andra, o queixo contrado e os ombros frgeis.
	No fui aquela que eles esperavam, no entanto. Desde muito pequena, tenho recordaes de como eu os decepcionava.
Ray sentiu raiva dos pais de Andra, mas se controlou e nada revelou a esse respeito.
	Continue, Andra. Por que foi uma decepo para eles?
	Por qu? J nasci decepcionando. Meu pai queria um menino. Papai ele ... digamos... dominador. Pode-se defini-lo assim. Para sorte dele, minha me  a esposa ideal em todos os aspectos. Entretanto, eu no era a filha adequada. Tentei agrad-lo, ser uma garota perfeita, como eles desejavam, mas... foi impossvel.
Ray se mantinha em silncio, dando espao para que Andra pudesse contar sua histria.
	Toda vez que eles me vestiam, eu me sujava. Quando me levavam a festas, sempre derrubava ou quebrava alguma coisa. Nunca dizia palavras agradveis e jamais trazia os amigos certos para casa. Tudo o que fazia era errado, de um modo ou de outro, e parecia que, quanto mais eu tentava e me esforava, mais estragava tudo.
A voz de Andra era muito triste, e Ray imaginou o quanto de dor e sofrimento j havia enfrentado.
	Eu amava arte, mas meu pai rejeitava a ideia. No admitia ter uma artista na famlia. Tentei convenc-lo de que tinha talento, e fiz o primeiro ano de arte na faculdade sem que ele soubesse. S tirava nota mxima, e quando papai foi  universidade para as festividades do final do ano, apresentei-o a meus professores.
	Mas o senador no ficou impressionado, no ?  Ray tentou adivinhar.
Andra fitou-o, e Ray viu a angstia que lhe passava no olhar.
	Meus professores lhe disseram quanto potencial eu tinha, mas, logo que ficamos a ss, papai ordenou que eu abandonasse o curso. Ficou furioso comigo e ameaou me mandar para fora de casa se eu no o obedecesse e fizesse o que ele queria.
Ray se aproximou dela e pegou-lhe uma das mos para lhe dar apoio e conforto.
	Eu estava com dezenove anos, e tinha sido sempre to superprotegida que fiquei apavorada com a ideia de ter de viver sozinha. Tambm no podia suportar a desaprovao de papai. Senti-me uma fracassada e, no semestre seguinte, entrei no curso preparatrio para fazer advocacia, como William queria.
Ray apertou-lhe os dedos.
	Nem  preciso dizer que foi um desastre, pois detestava Direito. Ento, papai achou que era hora de me casar. Ele e mame desistiram de insistir que eu estudasse e admitiram, na opinio deles, que no era capaz de fazer nada por mim mesma.
Ray no pde evitar de emitir um som de protesto.
	Decidiram que sua preciosa filha precisava de um marido. Phillip foi a escolha perfeita. Jovem, ambicioso e com certo traquejo social. Da parte dele, casar comigo significava entrar para a sociedade e vencer na vida profissional.
	Esse rapaz ia casar-se com voc para vencer profissionalmente?  Ray parecia horrorizado, e a pena que sentira de Phillip por ter sido abandonado no altar desapareceu por completo. 
	Ele precisava de dinheiro, e isso meu pai poderia lhe dar. E claro que no incio eu no sabia de nada. Quando Phillip comeou a me cortejar, fiquei envaidecida. Ento, ouvi uma conversa entre Phillip e meu pai, e fiquei sabendo da verdade.
	Que sujeito cretino! Depois que soube da verdade, Andra, por que continuou com a farsa? Por que no procurou sair da situao?
Andra se mexeu, esticou as pernas e olhou para a frente, evitando fitar Ray.
	Tentei agarrar a ltima chance de meu pai se orgulhar de mim. Para faz-lo...  A voz dela sumiu, e Andra afastou a mo das de Ray e pressionou os lbios com dedos trmulos.
	Para faz-lo o qu? Diga, Andra. Desabafe!
	Para faz-lo me amar! Mas no consegui. Estraguei tudo, mais uma vez.
	E quanto a sua me? Por que no lhe pediu ajuda?
	Mame  s uma figura decorativa.  bonita, fina, sente-se bastante  vontade nos ambientes sofisticados que eles frequentam mas no tem direito de opinar sobre assuntos srios. Aceita todas asdecises do marido.
Ray abraou-a, e Andra apoiou a cabea no ombro dele. Foi um abrao terno e fraternal, Nada tinha de sensual nem de voluptuoso.
	Andra, voc  to bonita e to doce...  sussurrou ao ouvido dela. 
Andra endireitou as costas, mas no se desvencilhou do abrao. A dor estava estampada em seu rosto delicado, Ray sentiu muita pena dela.
Ele meneou a cabea, contendo, a custo, as palavras iradas que gostaria de proferir contra os pais dela.
	Eles no tinham o direito de controlar sua vida, Andra. Isso  errado. No foi culpa sua t-los desapontado.
A culpa no foi sua, foi deles, por quererem dominar e sufocar seus anseios e sua vocao.
Ray passou a mo pelas costas de Andra. Outra vez aquele desejo incontrolvel de proteg-la. Mas era natural, diante do que ela estava lhe contando.
Solidariedade, nada mais. Ficaram abraados, em silncio, durante um bom tempo.
	Andra?
	Obrigada por me ouvir.  Ela enxugou o rosto, tentando apagar todos os traos de sofrimento.  No pretendia falar tanto. Foi um verdadeiro desabafo. Acho que vai fazer com que eu me sinta melhor.
	Ei, fui eu que fiz perguntas e exigi respostas, lembra-se?
	Voc tem um longo caminho para percorrer, amanh.  Achou melhor mudar de assunto, e se desvencilhou dele.
	Precisa dormir para estar bem-disposto e enfrentar mais um dia de viagem.
	Andra, espere.  Ray no estava satisfeito ainda. A conversa parecia inacabada.
Andra olhou para ele, e Ray sentiu-se de repente muito vulnervel. Dissera a ele que se preocupava com seu bem-estar e que os dois sentiam atrao um pelo outro. No iriam voltar a esse assunto? O fato de Andra ter lhe contado a histria de sua vida no queria dizer que admitia o que Ray lhe dissera. Outra vez ele se sentia sozinho e envenenado por mais uma rejeio.
No  nada, Andra. Voc tem razo. Precisamos acordar cedo. Vamos dormir.

CAPITULO IX

Acho que esta noite ficaremos em um motel  Ray disse, dois dias mais tarde, quando subia na cabine do caminho, depois de descarregar mercadorias em um depsito, nas docas de Los Angeles. Deu partida no motor e olhou de lado para Andra.  Quero dizer, dormiremos em quartos separados,  claro.  Engatou a primeira marcha e ps o veculo em movimento.
  claro  Andra assentiu, de imediato.
Sentiu que suas faces coravam e no achou que fosse em decorrncia do sol forte da tarde de vero, que penetrava na boleia atravs do pra-brisa. A simples ideia de passar uma noite com Ray, num motel, fez seu pulso acelerar.
Desde a conversa que tiveram na rea de descanso, na fronteira do Novo Mxico, a tenso entre os dois aumentara, e eles estavam muito atentos e muito cuidadosos com o que falavam. Mas as palavras de Ray continuavam pairando entre os dois.
Nos dias que se seguiram, nenhum deles tivera coragem de voltar a tocar no assunto.
Teria Ray se arrependido daquelas impetuosas afirmaes? Fora sincero, ou falara no calor do momento, sem que as declaraes tivessem significado real?
Andra sentia medo s de pensar que as afirmaes no tinham sido verdadeiras. Mas, se acreditasse que eram, se ousasse responder e abrisse seu corao, corria o risco de ser magoada. J no fora ferida demais no passado, quando procurara por carinho e amor?
Parou de divagar e voltou sua ateno  conversao do momento.
	No preciso de um quarto s para mim, Ray.
No queria que ele gastasse dinheiro com ela, pois j havia lhe causado transtornos de sobra.
	O qu?  Ray ergueu uma das sobrancelhas, saindo das docas, e virava  direita em direo  rua.
	Estou querendo dizer que no  o que voc entendeu!
"Deus do cu., nem eu mesma sou capaz de entender o que digo! Que confuso!"
	No quero dizer que ns, que eu e voc, que...
	Est bem, Andra. Compreendo que no quer partilhar o quarto comigo.  Ray parecia se divertir, e tinha um brilho estranho no olhar.
Estava rindo dela, e Andra o odiou por isso, mas tentou manter a dignidade.
	Certo. O que quero dizer  que ficarei muito bem aqui no caminho. No quero ser...
	...um transtorno.
	isso, Ray. No quero lhe causar mais aborrecimento do que j causei.
	Vamos discutir a respeito disso tambm?
	No estou discutindo com voc. Estou apenas...
	Andra, est acertado. Olhe, costumo parar num motel a meio do caminho de uma viagem muito longa como a que estamos fazendo. Nesse ponto da viagem, preciso de uma boa noite de descanso. E acho que voc tambm precisa. De qualquer modo, no pegarei um quarto se no quiser pegar um tambm. No vou deix-la dormir sozinha no veculo, pois no seria seguro.
Andra sentiu-se culpada. Se Ray estava to cansado, a culpa era dela. Ele insistia toda a noite que ela ocupasse o beliche, deixando-o dormir no banco da cabine. Mesmo assim, o clima no caminho ficou ntimo demais. Uma noite sossegada, em quartos separados, parecia mesmo muito bom. Poderia relaxar e dormir em paz.
Alm do mais, no tinha o direito de priv-lo desse repouso necessrio, numa boa e confortvel cama.
Tem razo, Ray. Faa do jeito que lhe parecer melhor.
	Como voc est compreensiva! Estou assustado!  Esboou um meio sorriso.
Andra correspondeu, apreciando a provocao.
	Est com fome, Andra?
	Ah, e como estou!
	H um pequeno motel um pouco afastado da estrada, perto da praia, ao sul, em Orange County. Fiquei l uma vez e comi em um restaurante mexicano que fica bem prximo. Poderemos deixar o caminho no estacionamento e ir a p.
Ray lhe dissera que na manh seguinte iriam para San Diego para pegar outra carga, por isso teria de ir para o sul, de qualquer maneira.
	Parece timo!  Andra ansiava por comer alguma coisa que no fosse pasta de amendoim, churrasco e fastfood.  Mas  um lugar simples, no ? No tenho nenhum vestido para usar.
	E tudo muito simples, fique sossegada.
	Obrigada.  Sorriu.  Adorarei sair e andar um pouco. 
	timo. Ento, vamos ter uma espcie de encontro.  Ray voltou-se para estrada, que j estava prxima.
Andra olhou, surpresa, para Ray. O que ele quisera dizer com isso?
Ray tomara banho, e se barbeava pensando na noite que iriam ter, querendo saber se Andra percebera que falara em encontro. No quisera usar esse termo, apenas sara sem que ele planejasse, como j acontecera vrias vezes desde que a conhecera.
Andra parecia ter o dom de virar seu crebro de cabea para baixo, mas estava determinado a ser mais cauteloso. No queria e no podia ser pego desprevenido por nenhuma mulher outra vez.
Essa noite, Andra  que teria de tomar alguma iniciativa.
O mero pensamento de alguma investida de Andra fez com que seus dedos tremessem, e Ray soltou uma imprecao quando se cortou com o aparelho de barbear. Enxaguou o rosto e pegou um leno de papel para comprimir o pequeno ferimento.
Terminando sua tarefa, vestiu-se e, como ainda era cedo para pegar Andra, resolveu telefonar para Zach. Seu inno atendeu ao quinto toque, quando j estava para desistir.
	Ei, irmo, o que est acontecendo? Demorou para atender, eu j ia desistir.
	Voc me acordou...
	Por que est dormindo to cedo?  Olhou para o relgio de pulso e fez o clculo da diferena de fuso horrio para o leste.  So apenas...
	No dormi na noite passada.  Zach o interrompeu, parecendo mais desperto.
Ray podia ouvir a respirao de Zach do outro lado da linha.
	Sherry teve o beb ontem, Ray, isto , esta madrugada, s trs horas, e s cheguei em casa h pouco, para descansar.
	Parabns! Meu sobrinho est bem? E um menino mesmo? Como est Sherry?  Excitado, Ray emendava uma pergunta na outra, no dando tempo ao irmo de responder.
	Claro que  um menino. Blake Jamison Armstrong, como papai. E todos esto timos.  um sentimento indescritvel, Ray. No paro de pensar no garoto o tempo todo.  incrvel e maravilhoso! Nem posso acreditar que tenho um filho. Sherry est maravilhada, e nunca nos sentimos to unidos como quando seguramos a criana em nossos braos pela primeira vez.
De repente, Ray sentiu-se muito triste. No sabia por que a felicidade do irmo o deixara deprimido, pois estava felicssimo com o nascimento do sobrinho.
Que tipo de sentimento estranho seria esse? Mais um enigma para decifrar.
Meneou a cabea como que para espantar essas ideias e passou mais dez minutos conversando com Zach, at que chegou a hora de pegar Andra.
Deixou Rex deitado ao p da cama, respirou fundo e foi at a porta. Saiu e, de repente, lembrou-se de que ainda estava com o pedao de leno de papel grudado no ferimento do rosto. Ento, voltou ao quarto, limpou a face e tornou a sair.
" um encontro...  um encontro...  um encontro..."
Andra continuava a pensar nas palavras de Ray quando, sentada na cama, nervosa, esperavas que ele chegasse. Ray lhe dissera para estar pronta s seis e meia.
Passara o tempo tomando banho, fazendo uma leve ma-quilagem e trocando de roupa, sem conseguir se decidir, diante do sucinto guarda-roupa que tinha a sua disposio.
Saiu para a pequena sacada e se ps a olhar a rua, tentando tirar da cabea a noite que estava para comear... ao lado de Ray.
O motel era como ele lhe descrevera. Simples, limpo e barato, numa regio antiga, a alguns quarteires da praia. No possua vista para o mar, mas tinha vagas suficientes, no tendo sido problema encontrar dois quartos vazios.
Se afastou da varanda e comeou a andar pelo quarto, incapaz de se manter quieta. Pensava em Ray, no aposento ao lado, imaginando como ele passara o tempo.
Via-o diante de si, com seus ombros largos e o corpo magro mas forte, com os msculos nos lugares certos. Como ele seria sem o jeans e a camiseta que usava no dia-a-dia?
	Oh, pare!  resmungou, encostando a testa numa das paredes e fechando os olhos.  Isso  to estpido!
Ento, foi at o banheiro e comeou a escovar os cabelos, tentando se distrair. Era apenas uma questo de autocontrole.
Ps a escova sobre a pia e pegou o batom, que tornou a passar sobre os lbios para que a cor ficasse um pouco mais forte e combinasse melhor com o short vermelho que estava usando.
Ouviu baterem na porta. Apressou-se para atender.
Ray estava do outro lado e parecia fantstico. Usava ber-muda caqui e uma camiseta azul de gola plo. Andra sentiu as pernas bambearem.
	Ol, Ray  conseguiu dizer.
	Ol.  Ele a mediu com o olhar.  Voc est... linda.
	Obrigada.  Andra corou.
Nunca tivera tanta facilidade para enrubescer. Sempre frequentara ambientes sofisticados e nunca se sentira intimidada. No gostava, mas sabia como se portar. Ai dela se no soubesse! Era o mnimo que podia fazer para no desagradar seu pai ainda mais.
Ento se deu conta de que o cumprimento de Ray fora to sincero que a deixara desconcertada. Nos ambientes que frequentava, a sinceridade no era uma caracterstica comum. As pessoas, sobretudo as mulheres, eram fteis e queriam se sobressair umas s outras. No havia simplicidade e franqueza. Tudo se resumia a vaidade e trfico de influncias.
"No se anime" ordenou-se. "Foi um mero cumprimento."
	Voc tambm est timo, Ray.  Tentou parecer casual.
Ficou surpresa ao constatar que Ray ruborizou um pouco, e se deu conta de que ele tambm estava nervoso.
	Obrigado, senhorita.  Sorriu.  Est pronta?  Fez uma gesto com o brao, indicando a rua, e ela saiu do quarto.
Levaram apenas cinco minutos para chegarem ao Poppi Pablo. Depois de sentarem-se, Ray pediu margaritas e lhe contou sobre o nascimento do beb de Zach e Sherry.
	Isso  maravilhoso!  Andra exclamou.  Como est sua cunhada? E o menino?
	A me e o filho esto muito bem. Zach parecia radiante, e me disse que sentiu uma emoo indescritvel ao pegar o garoto nos braos pela primeira vez. Esto loucos de alegria.
	Que maravilha!  Andra tornou a dizer e sentiu como se conhecesse Zach e Sherry h muito tempo.
A garonete chegou com uma bandeja numa das mos e um bloco e um lpis na outra. Era uma moa jovem e bonita, vestia um uniforme colorido que combinava com as cores da decorao do interior do restaurante.
Uma suave msica latina enchia o ambiente, e as mesas eram decoradas por velas dentro de globos vermelhos. O teto fora enfeitado por chapus mexicanos. O ambiente era uma mistura de intimidade e extravagncia.
A garonete trouxe as bebidas, uma cesta de tortilhas e duas tigelinhas de molho, um com pimenta e outro mais suave, que ps no meio da mesa.
 Esse  bem apimentado, Andra. J decidiu o que comer?
Andra percebeu que nem havia pensado a respeito da refeio. Pegou o cardpio e olhou-o rpido. Como todos os pratos eram escritos em espanhol, comeou a procurar algum que lhe fosse familiar.
	Quer provar frutos do mar feitos  moda da casa?  Ray veio em seu socorro.
	Sim, quero.
Entregaram os menus para  moa, que esperava para anotar os pedidos.
Frutos do mar  moda da casa para dois, por favor  pediu Ray.
O prato era acompanhado por saladas e, depois que pediram os molhos, a garonete se afastou.
Andra pegou urna tortilha, mergulhou-a na tigelinha e deu uma mordida no petisco crocante, pensando em alguma coisa para faiar.
Voc mal pode esperar para conhecer seu sobrinho, estou certa?
 Acertou na mosca, Andra! Na volta, antes de ir para minha casa, vou parar primeiro ha residncia deles.
 Voc tem uma casa?  Tomou um gole de margarita.
 Comprei um sobrado antigo, no ano passado.
 Eu o imaginava morando num apartamento de solteiro.
Ray deu uma gargalhada.
	Bem, se chama de apartamento de solteiro uma velha casa rstica de quatro cmodos que precisa de telhado e piso novos e tambm de renovar tudo o que est dentro dela, ento acho que acertou de novo. Passo todo meu tempo livre trabalhando para melhorar o lugar. Mas ainda falta muita coisa.
	Voc mesmo est fazendo as reformas?  Andra comeou a imagin-lo em cima do telhado, sem camisa e suado. Sentiu um calor lhe subir pela espinha, e no era por causa da bebida.
	Tomou outro gole, mas de nada adiantou. Ento, tomou mais um.
	A maior parte do servio sou eu mesmo que fao. Mas um pouco por vez. No tenho pressa. Moro sozinho, no h ningum me apressando e ningum a quem deva dar satisfaes.
	Por que quis uma casa em vez de um apartamento. No seria mais prtico?
Ray percebeu que a conversa enveredava por caminhos perigosos e no queria contar a ela o motivo pelo qual comprara o imvel. Viu que Andra mergulhava outra tortilha, dessa vez no molho apimentado.
	Quando a comprei, eu ia...
	Oh!  Andra o interrompeu, abanando a boca com a mo.  Isto  apimentado mesmo!  Pegou um copo com gua.
Ray no pde evitar de soltar uma gargalhada.
	Voc est bem?  perguntou quando ela ps o copo sobre o tampo da mesa.
	Sobreviverei.  Seus olhos estavam vermelhos.  Continue, eu o interrompi. O que voc falava a respeito da casa?  Tomou mais um grande gole de gua.
Ray suspirou. Pensou que Andra fosse esquecer da pergunta.
	Eu planejava me casar  admitiu, desistindo de fazer mistrio. Afinal, j tinha superado o problema.
Andra sentiu-se sufocar.
	Voc o qu? Ia se casar?!
	Sim, ia.  Ray se ps na defensiva, pois no esperava essa reao. O que ela estaria pensando? Que ele no daria um bom marido? Franziu o cenho, achando que fora isso mesmo o que Andra pensara, pois lhe dissera que no pretendia se casar.  Tudo foi cancelado.
	Sinto muito, Ray. Mas no foi uma deciso ao p do altar, foi?
	No, no.  Ele riu.  No chegou a esse ponto.
	O que aconteceu?Andra segurava a taa de margarita.
A garonete apareceu trazendo as saladas, e Ray esperou que se retirasse para continuar:
	Quando Zach e eu montamos nossa prpria empresa, Jillian achou que iramos ficar financeiramente muito bem  disse com rispidez.  Mas logo percebeu que uma situao como a que ela queria ter levaria algum tempo para se concretizar.  Ergueu os ombros.  Jillian era de famlia muito rica, e no pretendia baixar o nvel de vida. Terminou o noivado.
	Que terrvel!  Andra olhou para ele com comiserao.
Tocou a salada com o garfo, mas no levou nenhuma poro  boca.
	Foi melhor assim. Poupou-nos de uma unio desastrosa.  Ray percebeu, pela primeira vez, como essa cons
tatao era verdadeira.  Eu nunca teria sido capaz de faz-la feliz. Um ano depois de abrirmos a firma, ainda estamos lutando para mant-la e fazer com que seja vivel. Nesse meio tempo, se estivssemos casados, teramos destrudo o relacionamento, e talvez a ns mesmos.
	Por esse motivo  to contra o casamento?
	Isso no  para todas as pessoas.  Deu de ombros. Aquele era um tpico que no gostava de discutir.  Tenho um negcio para cuidar, e no preciso de outra distrao.
Ray olhou para Andra e pensou que, j que no precisava de distraes, o que estava fazendo ali, naquele restaurante com ela.
Andra era incrvel. Seus grandes olhos estavam luminosos sob a maquilagem sutil, os cabelos, brilhantes e sedosos, chegavam at os ombros. A cintura era fina, e as pernas que o short deixava  mostra eram longas e muito bem torneadas. Ficara tonto quando ela lhe abrira a porta do quarto.
Estava correndo perigo, no havia sombra de dvida sobre isso.
	Fale-me a respeito de sua arte  ele aproveitou para mudar de assunto.
	O que quer saber?  Andra descansou o garfo no prato.
	Voc disse que gostaria de ensinar crianas.
	Sim,  verdade, eu queria.
	Se esse  seu sonho, deve persegui-lo.  Ray comeu um pouco de salada.  Aposto que tem muita facilidade para lidar com os pequenos.
		Obrigada.  Sorriu,
Ocorreu a Ray, nesse instante, que nesse dia os dois ainda no haviam discutido.
A garonete trouxe os frutos do mar, acompanhados de legumes frescos e deliciosos. Os dois comeram com muito apetite.
J era noite quando deixaram o Poppi Pablo.
Como Andra disse que gostaria de ver o mar, caminharam os quarteires que os distanciava da praia.
As ondas pareciam prateadas, iluminadas pelo luar magnfico, e o cheiro do mar chegava at eles trazido pela suave brisa da noite de vero.
Caminhavam lado a lado, sem dizer nenhuma palavra, segurando os sapatos, que foram tirados para que sentissem a umidade da areia sob os ps.
Andra interrompeu o silncio, quando chegavam perto do motel:
	Obrigada por esta noite deliciosa, Ray. Diverti-me muito.
Pararam na frente da porta de seu quarto. O estacionamento estava em silncio, e, peio visto, todos os hspedes j tinham se recolhido.
	Eu tambm, Andra.
	Na realidade, devo-lhe mais agradecimentos. Tenho sido um estorvo, invadindo sua viagem, causando-lhe uma srie de problemas, discutindo por tudo, at mesmo quando voc estava certo e...  Calou-se de repente, percebendo que falara demais.
Mesmo quando eu estava certo? A respeito do qu?
Andra desviou o olhar, mas Ray fez com que ela o encarasse de novo, erguendo-lhe o queixo e virando sua cabea.
	Eu estava certo a respeito do que, Andra?
O tom esverdeado dos olhos de Ray era to intenso que Andra no conseguiu desviar o olhar. E ele a encarava, exigindo que completasse o pensamento.
	A respeito de...  Procurava uma mentira para dizer e ficar livre da questo, mas no encontrava nenhuma.
	Sobre o qu?  Ele chegou mais perto.
Andra engoliu em seco, tentou falar, mas no conseguiu.
	Vamos, diga, Andra?  sussurrou, ainda segurando-lhe o queixo.
	Sobre estar atrada por voc.
Ray deu um amplo sorriso de satisfao, e Andra quis ficar brava, mas s o que pde fazer foi sorrir.
	Andra?
	O qu?
	Vou beij-la agora.
	Est bem.  Um arrepio de antecipao percorreu-lhe a espinha.
	Estou avisando antes para que voc no diga que a estou agarrando ou coisa parecida.
	No, no direi isso.
	Otimo.
Ray baixou a cabea e beijou-lhe os lbios.
Andra fechou os olhos.
No foi como o ltimo beijo, louco e desesperado. Dessa vez, foi gentil, carinhoso e doce, mas nem por isso deixou de ser intenso e apaixonado.
Andra sentiu que tudo dentro dela parecia derreter. Estava leve como uma pluma. Passou os braos ao redor do pescoo de Ray, envolvendo-o tambm num abrao e colando seu corpo ao dele. Nada mais importava alm dos dois corpos unidos, a rigidez dele contra a suavidade dela, tragados pela fora e pelo encantamento do momento.
Ray comeou a beijar-lhe as plpebras, faces e o pescoo.
Andra tremia e gemia, ansiando por mais intimidade.
	Oh, Ray!  Pensou que ia desfalecer.
	Andra...  Ray, agora, dava pequenas mordidas nos seus lbios.
Andra abriu os olhos, confusa, e deparou com as faces dele, cuja expresso mostrava toda a sua paixo.
Nenhum dos dois ouviu o carro que se aproximava. Embaraada, Andra se afastou e fitou as luzes dos faris que iluminavam o rosto de Ray, que tambm olhava para o veculo, aborrecido.
Os faris do automvel se apagaram, e um casal desceu. Os dois foram at o porta-malas. Abriram-no, pegaram suas malas e se dirigiram ao quarto contguo ao de Andra, onde entraram e fecharam a porta.
Andra olhou para Ray.
	Sinto muito.  Ele sorriu.
	Acho que a calada no  o lugar apropriado para... bem...  Tentou sorrir e completar o pensamento, mas no conseguiu.
	Para dar esse tipo de espetculo?
	.  Andra ps a mo no bolso do short para pegar a chave.  Mas j  tarde, no ? Voc precisa se levantar cedo amanh de manh.
Seus dedos nervosos no conseguiam acertar a fechadura. Assim, Ray pegou a chave e abriu para ela.
Andra entrou e se virou para olhar para ele. No queria que Ray se fosse, mas as coisas estavam acontecendo depressa demais.
	Boa noite, Ray.
Ele estava relutante, e no se movia. No queria sair dali, no desejava que aquela noite to agradvel terminasse. Pretendia continuar ao lado dela, beijando-a, abraando-a. Adoraria peg-la nos braos e entrar no dormitrio, dela ou dele, isso no tinha a menor importncia, e fazer amor com Andra a noite toda. E tambm no dia seguinte, E no outro... e no outro...
"Devagar, Ray Armstrong!" "Devagar, seu maluco!"
	Boa noite, Andra.  Entregando-lhe a chave, que ainda segurava.
Ento, Ray dirigiu-se para seus aposentos, indo direto para o banheiro, onde tentou, com uma ducha fria, amenizar o desejo intenso que tomara conta de seu corpo.

CAPITULO X

De onde vocs so?  perguntou a garonete do restaurante de estrada, em Arkansas, no momento em que punha um generoso pedao de torta de ma na frente de Ray, Ato contnuo, comeou a somar o que haviam gasto no lanche, no bloquinho de pedidos.
Andra ficou em silncio, deixando a resposta por conta de Ray.
	De Washington.
A garonete destacou a conta do bloco e a ps sobre a mesa.
	Verdade? Voltaro para casa logo?
Andra olhou para Ray, que a fitou por um segundo.
	Estaremos de volta amanh.
Andra cruzou os braos, sentindo um Mo repentino. No dia seguinte. Como no percebera que estavam to perto do fim?
Porque, disse a si mesma, no queria pensar em voltar para casa. No queria pensar em se separar de Ray.
Virou-se para fora, em direo ao estacionamento de caminhes. Lar, para ela, era o caminho de Ray, onde vivera nos ltimos nove dias. Porm, tinha de encarar a realidade. Os ltimos dias de viagem, desde que deixaram a Califrnia, tinham sido memorveis e maravilhosos. Passaram a conhecer um ao outro sem discusses e sem a tenso que marcaram os primeiros momentos. Mas nenhum dos dois mencionara o que aconteceria quando tudo terminasse.
Ray no manifestara nenhuma inteno de querer v-la outra vez, quando estivessem em Maryland. No dissera nada a esse respeito.
Afirmara que se preocupava e se importava com ela, mas falara essas palavras no calor do momento, e no mais as repetira. Tambm declarara que estava atrado por Andra, e seus beijos eram prova de que no mentira. Porm, era s. Atrao, beijos e nada mais.
Tinha certeza de que tambm sentia atrao por Ray, mas o que poderia fazer a respeito? Deveria tomar alguma iniciativa? No estava nem um pouco segura sobre isso.
Andra gostaria de congelar o tempo, se isso fosse possvel, e no sair do restaurante, no percorrer mais nenhuma milha que a aproximasse do momento em que teriam de se separar.
	Voc tem certeza de que no quer nenhuma sobremesa, querida?
Andra levou um minuto para perceber que a moa estava falando com ela.
	O qu? Oh, no... Obrigada.
A garota se afastou, e Andra olhou para Ray.
	Sabe que eu ainda no tinha tomado conscincia de chegaremos a nossa cidade, amanh?
Ray pareceu preocupado.
	Est pronta para enfrentar seu pai?
	Estarei bem. Estou ansiosa para retornar e voltar para a minha vida.
Andra tentava passar confiana e segurana, no entanto isso estava difcil. No podia contar com a proteo de Ray para sempre e no queria que ele pensasse que ela poderia tentar ficar a seu lado e adiar a volta para o lar. No desejava que Ray a visse como uma carga ou como uma pessoa fraca que no sabia como cuidar de si.
Ray olhou para Andra em silncio, durante um longo momento. O som de pratos e da conversao ao redor envolvia os dois.
	Ainda bem. Voc j pensou no que vai fazer, Andra? Se precisar de ajuda quando chegarmos, eu...
 No precisarei de nada, estou certa disso  ela afirmou, em oposio aos anseios do seu corao.
No era ajuda o que Andra queria de Ray, nesse momento. Porm, era bvio que ele no se sentia da mesma maneira.
	Est bem, Andra. Otimo. Ento voc no vai precisar de auxlio.  bom ouvir isso.  Levou um pedao de torta  boca e ficou com uma expresso amarga.
Empurrou o trato e pegou a conta.
	No quero mais isto. Vamos embora.
	O doce no est bom?
	Est. Apenas perdi o apetite.  Ray encarou-a.  Por qu, voc quer? Pode comer, est boa e muito bem-feita.
	No, no quero. E que voc estava com tanta vontade de comer a torta, e, de repente, deixou quase o pedao todo. Ento, pensei que estivesse ruim ou estragada.
	Chega desse assunto. Vamos para a estrada.  Ray levantou-se e foi at o caixa, deixando-a ainda sentada  mesa.
	Por que ficou com pressa, de repente?  Andra quis saber, intrigada,
Ray mudou a marcha, saiu do estacionamento e logo ganhou velocidade, se misturando ao trnsito intenso que se dirigia para o leste.
	No estou com pressa.  Olhou de soslaio para ela, atravs dos culos de sol.
Andra dava a Rex um pedao do sanduche que guardara do almoo.
	Atrasou-se ou seu horrio est dentro do normal?
	No, Andra, no estou atrasado. Estarei l no tempo previsto.
	Ento por que no terminou a sobremesa? Est se sentindo bem?  insistiu, preocupada.
	Sinto-me muito bem. Fique tranquila.
Sofria de uma forte dor no estmago, como quando comia algum alimento gorduroso e pesado, daqueles que costumava carregar no caminho. Mas no queria explicar o motivo para Andra. J estava sendo muito difcil explicar para si mesmo.
Na verdade, no gostava de pensar que dali a pouco no mais iria v-la. E o que o deixava mais contrariado era que, para ela, tudo parecia bem. Andra encarava o momento com naturalidade.
Mas, afinal, o que esperava que ela fizesse? Ele era um homem comum, e Andra, uma princesa. A experincia que tivera com Jillian deveria ter sido suficiente para provar que no tinha condies nem dinheiro para fazer feliz uma mulher desse nvel social. Tinha sido esse o motivo pelo qual decidira no se envolver com Andra, ou com qualquer outra. Mas, de alguma maneira, apesar de suas melhores intenes, essa resoluo parecia ter se perdido ao longo do caminho.
Era tempo de assumir a realidade antes que seu corao fosse magoado mais uma vez.
	Tem certeza de que est tudo bem, Ray?
Ele se virou para ela e viu a preocupao no olhar, como se estivesse se comportando de maneira estranha.
Entretanto, no podia explicar nem se desculpar. No dia seguinte, por volta do mesmo horrio, tudo teria se acabado e no haveria mais necessidade de explicaes.
Desviou-se dela. Tinha de impor uma distncia entre os dois, e no iria conseguir se continuasse a fitar aqueles olhos lindos e meigos.
	J disse que estou bem, Andra. Voc se importa de ficar um pouco quieta? Preciso me concentrar na direo.
	Ali. Vire naquela rua.  Andra indicava o caminho para Ray, que entrou no bairro antigo e milionrio de Silver Spring, com casas enormes e maravilhosas, cercadas por rvores altas e gramados muito bem conservados.
As ruas tambm eram arborizadas, e todas as residncias tinham a proteo de muros altos e guaritas com seguranas particulares.
Ray dirigia pela alameda silenciosa, sentindo-se deslocado, fora de seu ambiente. Era a esse tipo de lugar que Andra pertencia e onde deveria viver. No com ele, um homem comum e pobre, se comparado a ela.
 aquela l.  Andra apontou para um enorme porto de ferro.
Ray encostou o caminho. Apesar de tudo, tinham passado bons momentos juntos depois que deixaram a rea de descanso de Tennessee, onde haviam passado a noite. Fizera uma ltima parada para entregar mais uma carga, e ento rumara direto para Silver Spring.
Durante o dia todo, lembrara a si mesmo que livrar-se de Andra fora o que quisera desde o incio da viagem, e agora... ela, enfim, iria sair de seu caminho.
Ento por qu, de repente, a ideia de no v-la mais depois que descesse do veculo o deixava em pnico? Deveria estar aliviado.
	Andra...
	Ray...
Os dois ficaram se olhando sem falar mais nada.
	O que voc ia dizer, Ray?
Estava muitssimo sexy, vestida de short cor-de-rosa e camisa branca de mangas curtas, ali, em sua boleia, olhando para ele com aqueles olhos enormes e brilhantes. Ray tentava no respirar para no sentir o aroma delicado e suave do corpo de Andra, que j lhe era familiar.
No tinha ideia do que dizer. Estava frustrado consigo mesmo por querer falar alguma coisa. Nada tinha a dizer, a no ser se despedir.
O qu, afinal, havia de errado com ele? J no fora chutado o suficiente para aprender a lio?
	Nada, Andra. No esquea suas roupas.
	No paguei por elas. Na realidade, so suas.
	No posso us-las.  E no queria nada que lhe recordasse que tinham ficado juntos durante dez dias.  Leve-as.
Andra mordeu o lbio, procurando, ansiosa, por alguma coisa para responder. Algo que fizesse algum sentido, mas nada surgia em sua mente. Foi at a parte de trs da cabine, pegou uma mochila com uma das mos e o vestido de noiva no outro brao. Abriu a porta e ps um p para fora. No ltimo momento, virou-se.
A brisa da tarde soprou seus cabelos cacheados, e Ray percebeu que Andra queria lhe dizer alguma coisa. Um fio de esperana fez com que prendesse a respirao, em suspense.
	Obrigada por tudo  ela falou com simplicidade.
Gratido! Era isso que Andra sentia?
	No foi nada  Ray respondeu, nada amistoso e bastante furioso por ser estpido em pensar por um momento que Andra diria outra coisa que no um agradecimento.
	Claro que foi. Sei muito bem que no queria me levar junto, e estou muito agradecida por sua gentileza.
Ele ficou ainda mais irritado, e ergueu os ombros para mostrar indiferena.
	Esquea.
	No sei o que eu faria sem voc, se no...
	 melhor entrar de uma vez.  Tinha de impedir que Andra continuasse a falar. No aguentaria se lhe agradecesse mais uma vez.  O palcio a espera,  Indicou a casa com um gesto de cabea.
	O qu?  Fitou-o, surpresa.  O que disse?
	Nada.  Suspirou frustrado.  Nada!
	Tem certeza?
	 verdade, eu disse alguma coisa, mas no tem importncia. Deixe para l.
Ray no queria que Andra ficasse contrariada. Ele  que deveria parecer bravo, para que ela sasse logo de seu caminho e de sua vida.
	Por que est se comportando como um tolo, Ray? Pensei que, enfim, estivssemos nos entendendo. Pensei que...  Parou de falar de sbito.
Parecia magoada, o que deixou Ray ainda mais nervoso. No queria faz-la sofrer. No desejava isso para nenhum dos dois. Essa era uma das razes por que queria se afastar logo dela.
	No h motivo para discutirmos agora, Andra. Apenas quis dizer que a casa onde mora parece um palcio. No precisa levar to a srio.
Andra permaneceu com o olhar fixo durante um minuto. Parecia se preparar para iniciar uma discusso, ento apertou os lbios.
	Est bem, Ray. Tem razo. Do que adiantaria? Sabe de uma coisa? Voc passa muito tempo com Rex, por isso, tudo o que sabe fazer  latir. Passe muito bem!
Desceu da boleia, bateu a porta e correu at o porto, com o vestido branco esvoaando com a brisa amena do vero. Apertou uma srie de botes na caixa de segurana. O porto se abriu, e ela desapareceu.
Ray ficou ali, parado, durante um instante, olhando para o infinito. Rex latiu, e ele olhou para o animal, imaginado se o olhar do cachorro era triste ou era fruto de sua imaginao.
	V para trs, Rex.  Estava determinado a tirar Andra da cabea.
Deu a partida no motor e se foi.
Andra sentia-se frustrada e infeliz. Caminhava pelos jardins, rumo  entrada da residncia dos pais. O que estaria sucedendo a ela? Era bvio que Ray devia se sentir contente por ter se livrado dela e... Ora, por que razo tinha que se preocupar com o que ele pensava a seu respeito?!
No tinha a chave da entrada, ento tocou a campainha.
Gretchen abriu a porta.
	Oh, cus, srta. Andra!  a empregada gritou. Virou-se e falou ainda mais alto:  Sra. Conroy! Sra. Conroy!
Lillian apareceu no enorme vestbulo. Usava um conjunto de linho, colar de prolas e sapatos fechados de saltos altos. Os cabelos escuros foram presos num coque na altura da nuca. A me de Andra sempre se vestia como se fosse sair, mesmo que no tivesse planos de deixar a casa.
	Andra!  Lillian correu pelo piso de mrmore. Abraou a filha to apertado que Andra pde sentir-lhe os ossos, pois era uma mulher pequena e magra, como determinava a moda atual.  Querida, como voc est?
Lillian se afastou e estudou a filha, com o olhar genuinamente preocupado, o que deixou Andra sensibilizada e emocionada.
	Estou bem, mame.
	Graas a Deus! Estive to aflita! Depois que Gretchen nos disse que voc havia telefonado, ficamos aliviados em saber que no fora sequestrada ou alguma outra coisa horrorosa, mas ficar esse tempo todo sem saber de seu paradeiro foi horrvel.  Lillian gesticulava com dramaticidade.  Deus, a agonia terminou! Preciso telefonar a seu pai. Ele ainda est no escritrio, e Phillip...
	No! No chame Phillip! Eu mesma lhe telefonarei, logo mais. Devo uma explicao a Phillip. Mas no hoje, mame!
	Est bem, se  isso o que quer  Lillian concordou, com alguma relutncia.  Mas desejo que saiba que seu noivo est muito preocupado com voc. Isso tudo foi um tormento tambm para ele.
	Sim, estou certa de que sim.  Podia imaginar por que tortura Phillip estava passando. Sua carteira deveria estar sofrendo muito, sem dvida nenhuma.
	Agora vou telefonar para o escritrio de seu pai.  Lillian tornou a abraar a filha.  Estou to feliz por voc estar em casa de novo, querida! To feliz!
Antes que Andra pudesse responder, Lillian j se afastava, para desempenhar sua misso.
Andra aproveitou a oportunidade para subir para o quarto. Estava exausta, mas sabia que no poderia fugir da realidade enfiando-se na cama. O confronto com William Conroy era inevitvel, e no podia esperar.
Tomou um banho de chuveiro, demorado e bem quente, vestiu um velho jeans, uma camiseta grande e, descala e com os cabelos molhados sobre os ombros, desceu as escadas, notando como a casa era enorme, e os mveis, austeros e formais. Era um ambiente frio, sem calor humano.
Depois do fiasco na faculdade de direito, voltara a viver com os pais. Mas uma das coisas de que tinha certeza era da necessidade de sair dali e viver sozinha. Aquele no era seu lugar. Tinha algumas economias, e encontraria um emprego. E j sabia o que faria depois.
Sentira-se mais confortvel no caminho de Ray do que no prprio lar, onde tinha nascido e crescido. Era uma constatao estranha, no entanto, pensar em Ray era doloroso, por isso afastou o pensamento sem analis-lo.
Andra encontrou a me e o William conversando no terrao. Ele vestia um temo escuro, e Andra observou que no se lembrava da ltima vez em que vira o pai usar alguma roupa coisa que no fossem seus ternos formais e bem talhados.
	Andra...  William Conroy se levantou quando a filha entrou no terrao.
Andra ficou parada, olhando para William, desejando com ardor que ele a abraasse, mas no foi isso o que aconteceu.
No mesmo momento, Gretchen entrou com copos de ch gelado, Lillian e William sentaram-se nas elegantes cadeiras de ferro, e Andra os acompanhou.
A brisa era suave e morna, e soprava em direo do jardim em estilo ingls que circundava o terrao, e o final de tarde punha sombras no gramado ao redor.
Andra tomou um gole de ch e colocou o copo sobre uma mesinha. Gretchen entrou na casa, e todos permaneceram quietos.
Andra olhava para o jardim pensando em como as plantas, apesar de bem-cuidadas, pareciam suprfluas e insignificantes, numa obedincia solitria. Eram bonitas, mas pareciam sem graa, sem vigor e sem exuberncia.
Cus, estaria imaginando coisas? Eram plantas, e no pessoas. Mas eram seres vivos, e tambm precisavam de carinho.
	Andra?  Wiliam chamou sua ateno.  Voc nos deve explicaes.
Ela sentiu-se como uma adolescente que tivesse sido pega chegando, sorrateira, de madrugada.
	Sinto muito por ter causado tanta preocupao e tanto aborrecimento.
	Onde esteve, querida?  Lillian quis saber.
	Com um amigo. Um caminhoneiro. Fui com ele para a Califrnia e voltei. Precisava ficar afastada por algum tempo.
	Um caminhoneiro!  Wiliiam exclamou, estarrecido.
	Querida, ele magoou voc?  A expresso preocupada da me lhe ps vincos no rosto maquilado com perfeio.
	No, mame, no me magoou.  Pelo menos no da maneira como Lillian estava imaginando.  Estou bem. Meu amigo apenas me deu uma carona, e isso  tudo. Fui e voltei, s e salva. Ele cuidou bem de mim.
William franziu as sobrancelhas, escutando a filha falar. Depois que ela se calou, foi a vez dele:
	Quero dizer-lhe o quanto estou aliviado por v-la de volta ao lar, ntegra e sem nenhum ferimento ou coisa parecida, Andra. Mas estou desapontadssimo com todo esse episdio. Voc humilhou sua me e a mim, para no mencionar Phillip. Para sua sorte, porm, ele deseja relevar esse incidente e, aora que est de volta, podemos planejar outra cerimnia.  claro que dessa vez ter de ser bem mais simples...
	Ns no vamos fazer nada disso, papai!  Andra o interrompeu. Contou at dez e enfrentou William pela primeira vez na vida.  No vou me casar com Phillip.
	Andra, j discutimos isso e chegamos  concluso de que  o melhor para voc e...
	No: vocs discutiram isso. Agora estou lhe dizendo o que eu quero, e no  me casar com Phillip!  Ergueu o queixo, encarou o pai.
	Estou vendo que ainda no voltou a seu juzo normal, depois de tudo o que aconteceu  William disse com voz spera.  Est arrumando sua vida.
	William, por favor!  Lillian implorou ao marido.
	Fique quieta, Lillian!
	No, papai, voc  que tem de ficar quieto!  Andra levantou-se e continuou a olhar para William, enfrentando-o.  No grite com mame. Para sua informao, no estou arruinando minha vida. No mais.
Lembrou-se de que Ray a tinha acusado de culpar os outros pelos prprios problemas e, de repente, percebeu que ele tinha razo.
	No vou mais me deixar intimidar por voc, pai.
William abriu a boca, mas Andra ainda no havia terminado.
	De hoje em diante, eu decidirei o que  melhor para mim, e vou lhe dizer pela ltima vez: no vou casar com Phillip. E voltarei para a faculdade, pois quero lecionar.  Nesse momento, percebeu o quanto queria fazer o curso de arte e ensinar crianas.
As faces de William ficaram vermelhas. Ele se ergueu e, com o dedo em riste, ordenou:
	Sente-se, Andra. No tem capacidade de decidir o que  melhor para voc. Vai fazer o que eu lhe disser para fazer, ou pode sair desta casa neste mesmo instante.
Andra foi invadida por uma calma surpreendente. No passado, teria recuado. Mas agora, no.
	Irei assim que puder.
	No!  Lillian levou a mo ao peito.  No, William! Chega! No vou deixar que afaste nossa filha dessa maneira. Nesses dez dias em que ela ficou fora, tive muito medo de nunca mais voltar a ver Andra.  Os olhos de Lillian estavam marejados de lgrimas.  Essa complicao toda  culpa sua, no dela, que no queria casar com Phillip desde o incio, mas voc a forou, e eu tambm. Mas agora basta! No vou perder minha filha. Se Andra se for, eu irei com ela.
Andra estava boquiaberta. Nunca vira sua me reagir daquela maneira e enfrentar o marido. Lillian sempre fora submissa, e parecia viver feliz assim, s se preocupando com as aparncias e deixando os assuntos mais srios a cargo de William.
	Voc no pode estar dizendo uma coisa dessas, Lillian!
	Acho que ela pode, pai  Andra continuava a enfrent-lo.  E eu tambm.  Foi at a me, passou o brao pela cintura dela, e ambas enfrentaram o poderoso William Conroy.
	Est agindo como uma desequilibrada, igual a ela, Lillian. Nunca me enfrentou desse modo.
	No acho  Lillian retrucou.  Ao contrrio do que pensa, William, voc  que precisa tomar conscincia do que est fazendo com sua nica filha.
As duas viraram as costas e saram do terrao, deixando o senador sozinho.
Andra arrumava suas coisas, pondo roupas numa mala, sem se preocupar em dobr-las. No podia evitar de pensar que Ray ficaria orgulhoso dela, pelo modo como enfrentara o pai e assumira o controle de sua existncia.
Ento, lembrou-se de que no iria contar a ele, que no o veria de novo, porque Ray quisera que fosse desse modo. No havia nada que pudesse fazer nesse sentido, e no deveria nem sequer tentar. Lgrimas escorriam por suas faces, e ela no conseguiu disfar-las quando sua me entrou no quarto.
 Oh, Andra, tudo vai acabar bem!  Lillian a abraou.
Andra enxugou os olhos, fez que sim com a cabea e olhou para Lillian. No iria aborrec-la dizendo que ela estava errada, que nada iria acabar bem.
Sua me no entenderia. No sabia que a filha estava apaixonada.

CAPITULO XI

Mais um pedao, Ray?  Sherry .apontava para o bolo de chocolate, no centro da mesa. Seus olhos castanhos mostravam preocupao.
No, no. Est delicioso, mas j comi alm do que deveria.  Levantou-se e comeou a ajud-la a tirar a mesa, enquanto Zach, sentado, alimentava B.J., seu filho de um ms de idade, deitado no carrinho, segurando a mamadeira com uma das mos e com a outra tentando comer seu pedao de bolo.
	Voc tem trabalhado muito.  Sherry passou a mo pelos cabelos de Ray, cortados retos  altura da nuca.  Zach tem me falado que fica at tarde no escritrio e depois volta sozinho para casa, onde trabalha, tambm. Acho que, de vez em quando, poderia fazer um intervalo para comer uma comidinha caseira e visitar seu sobrinho.
Ray tirou alguns pratos da mesa para lev-los  cozinha.
	Estou apenas me mantendo ocupado.
	Se mantendo ocupado?!  Zach repetiu num tom de incredulidade.  Olhe, os negcios esto indo muito bem, no temos do que reclamar, mas nenhum sucesso vale as horas que tem trabalhado, Ray. E quando no est trabalhando, est em casa, sozinho. Precisa ter uma vida privada, sair na companhia de outros jovens, ir a bares, sei l. Ter contato social, enfim. E no me responda que tem Rex. Ele  um cachorro adorvel, mas sabe bem a que me refiro.
Ray no queria falar a respeito de sua intimidade. Ocupou-se carregando mais pratos. Tentara exorcizar os pensamentos de Andra de sua mente com esforo extra. No ajudara, mas fora de alguma vantagem, pois conseguira mais alguns contratos para a empresa.
	Soube alguma coisa a respeito de Andra?  Sherry ps gua na cafeteira eltrica, para fazer o cafezinho que o cunhado gostava de tomar depois das refeies.
	No.  Ray sabia que Sherry queria seu bem, mas desejaria nunca ter contado nada a respeito de Andra, nem para ela, nem para o irmo. No lhes tinha revelado muito, mas o que no pudera admitir eles leram nas entrelinhas.
	Gostaria muito de conhec-la.  Zach sorriu, bonacho.  Talvez voc devesse telefonar-lhe, e virem juntos jantar conosco, ou apenas tomar um aperitivo. Andra aproveitaria para conhecer B.J., j que, segundo voc nos disse, ela gosta muito de crianas.
Era o mesmo refro. Zach j dera essa mesma sugesto vrias vezes nas ltimas semanas.
Ray continuou a pr loua na mquina at que Sherry o fez voltar a sentar-se na cadeira que ocupara antes de levantar-se para ajud-la a tirar a mesa.
	No vou telefonar para Andra.
	Por que no?  Zach terminara de comer o pedao de bolo, e o beb continuava a tomar a mamadeira.   bvio que no consegue esquec-la.
	No sabe do que est falando!
	Sei, sim, Ray  Zach assegurou.  E voc tambm. Est trabalhando como um louco no escritrio e, quando vai para casa, tambm trabalha, umas vezes pintando, outras fazendo consertos e sabe-se l mais o qu. Est doido por essa moa. Por que no admite? Por que  to teimoso?
	Pare com isso, Zach!  Ray levantou-se, empurrou a cadeira, furioso, e saiu da sala.
Sherry arregalou os olhos, assustada com a reao do cunhado, e Zach ficou quieto.
	Acha que essa resistncia dele  apenas por Andra ser uma moa de famlia muito rica e importante, Zach?
	Ele tem seus motivos, Sherry. Afinal de contas, Jillian terminou o noivado por querer um marido rico.
	Sim,  verdade. Mas Ray no pode permitir que um fato do passado norteie o resto de sua existncia. Nem todas as mulheres so como Jillian. Ray tem de tentar ser feliz outra vez.
Pararam de falar quando perceberam que Ray estava voltando.
Ele entrou e tornou a sentar-se na cadeira, perto de Zach.
	Desculpem-me. Estou um pouco nervoso. Talvez seja mesmo excesso de trabalho.  Fez uma pausa.  Est bem, ento no consigo parar de pensar em Andra. E da?
Cruzou os braos, na defensiva. O caf ficou pronto, Sherry serviu trs xcaras.
	Voc est apaixonado, Ray.
Ele franziu o cenho, e Sherry apressou-se a completar a frase antes que Ray a interrompesse:
	Talvez no tenha admitido, mas voc ama muito Andra.
	No est em seu juzo perfeito, Sherry.  Ray olhava para a xcara que tinha entre as mos.
Sherry teria razo? Estaria apaixonado por Andra?
Distrado, Ray tomou dois goles da bebida fumegante, queimou a lngua e quase derrubou a xcara. Foi at a cozinha buscar um pano de prato para enxugar a toalha da mesa.
	Isso  impossvel  Ray murmurou, parecendo mais querer convencer a si mesmo do que a cunhada.  Pensa que no aprendi a lio com Jillian?
	Jillian Schmillian!  Zach ergueu as mos, como se fosse orar.  Outra vez a mesma conversa.
	Andra no  Jillian  Sherry disse.
Ray ficou em silncio, e Zach continuou a observao da esposa:
	Quando vai parar de culpar Jillian por no conseguir mais ter um relacionamento sadio com uma garota? Se quer passar o resto da vida sozinho e amargurado, no  culpa de ningum mais alm de voc. Portanto, pare de culpar Jillian. Ela ficou no passado.  coisa superada. Voc a amava tanto assim?
Ray no respondeu e, de repente, as palavras de Andra, na hora em que se despediram, voltaram  sua memria, enquanto encarava o irmo.
"Voc tem passado tempo demais com Rex, por isso, s o que sabe fazer  latir."
Ele seria assim? Solitrio, amargo, espantando todos os que se aproximassem dele e culpando os outros por sua infelicidade? Acusara Andra de no tomar atitudes para assumir o controle de seu destino, mas... e ele? No seria culpado pelo mesmo motivo?
Sentiu um aperto no peito. Teria Ray permitido que o passado destrusse seu futuro?
	Isso agora no importa  Ray afirmou, rspido, mais para ele prprio do que para os outros.   tarde demais.
	Nunca  tarde, meu irmo.
Ficaram todos quietos durante alguns momentos, at que Sherry quebrou o silncio:
	Ray, se est apaixonado por essa mulher e no confessar isso a ela, vai se arrepender pelo resto de sua vida.
Andra acabou de bater o ltimo prego com o salto de um sapato e pendurou o quadro na parede, uma aquarela que reproduzia um belo jardim, acima do sof. Deu um passo para trs para admirar a obra, pintada por ela.
Sorriu, satisfeita. Seu apartamento era pequeno, mas muito acolhedor, mobiliado com o que pudera comprar com suas economias, no estilo ecltico que ela adorava.
Passara-se um ms desde o dia em que Ray a deixara na casa de seus pais. Lillian continuara resoluta a enfrentar o senador William, e estava hospedada em um luxuoso hotel em Washington. Agora que tivera a coragem de se opor ao marido, no queria voltar atrs.
Andra se ocupara procurando um lugar para morar, matriculando-se numa faculdade que iniciaria as aulas no outono e trabalhando em perodo integral num caf. Sentia-se independente, pela primeira vez na vida, vivendo do jeito que queria. S no esperava que fosse sentir-se to solitria.
E no achava que sentiria saudade de Ray a cada vez que respirava, s vezes com tanta intensidade que chegava a sentir dores no peito.
Nunca deixava de pensar nele. Aqueles dez dias na estrada tinham mudado sua vida. No era a mesma pessoa que fugira da igreja com medo de tudo e de todos.
Mas ainda temia enfrentar Ray e dizer que o amava. Apavorava-a a ideia de que ele pudesse ser mais uma pessoa que fosse lhe negar amor.
O senador est na biblioteca e o receber agora.  A empregada uniformizada indicou o caminho ao homem que esperava no vestbulo para ser recebido.  Por aqui, sr. Armstrong.
Ray a seguiu, querendo saber se Gretchen era a mesma pessoa que atendera ao telefonema de Andra naquele primeiro dia da fuga.
A criada o conduziu at uma porta de carvalho, polida como se fosse nova, deu duas pequenas batidas, abriu a porta e ps a cabea no vo.
	O sr. Armstrong  anunciou e abriu a porta para que Ray passasse.
O cmodo era grande. A imensa mesa do senador ficava ao fundo e parecia fazer parte de um trono. As paredes eram forradas de estantes cheias de livros de capas de couro, arrumados com perfeio. Ray achou que tinham o aspeto de nunca terem sido lidos e tambm no havia sinal de poeira sobre eles. Transpiravam austeridade, como tudo o que vira na residncia.
	Obrigado, Gretchen  o senador agradeceu, e a porta se fechou, em silncio, deixando os dois homens a ss.
O senador, William Conroy IV, continuou de p esperando Ray se aproximar. Estendeu a mo para cumpriment-lo. Seu contato mo era forte, porm frio. Sem dvida, o cumprimento de um poltico, acostumado a cumprimentar muita gente; na maior parte das vezes, pessoas que no tinham significado algum para ele.
O senador sentou-se, indicando uma das poltronas  frente da mesa, com um movimento de cabea, quase imperceptvel. Ray acomodou-se tambm, e o senador entrou di-reto no assunto:
	Eu no costumo receber estranhos que venham  minha casa. Mas Gretchen me disse que  o senhor o homem que trouxe minha...  Fez uma pausa como se estivesse se corrigindo de empregar alguma palavra errada.  ...que ajudou Andra durante o infeliz e recente episdio ocorrido
alguns dias atrs.
	Sim, senhor,  verdade.
	Devo-lhe agradecimentos.  William encarou Ray durante um longo momento.  Mas creio que deseja alguma coisa alm disso.
William abriu uma gaveta, de onde tirou um talo de cheques que colocou sobre a mesa, abriu e preencheu um, e o empurrou em direo de Ray.
	Espero que ache essa quantia adequada por tudo o que fez por Andra.
	No foi por esse motivo que vim aqui!
Nem sequer olhou para o cheque. No queria saber que valor monetrio o senador dava  prpria filha.
A impresso inicial que tivera do homem estava confirmada. Era duro, frio e arrogante. No gostou dele logo que o viu, e sentiu uma enorme empatia em relao a Andra por ter aguentado o pai durante tantos anos, obedecendo-o e se anulando. Pobre Andra! No era fcil enfrentar aquele indivduo.
Os olhos de William Conroy se estreitaram quando Ray empurrou a folha de volta. Recostou-se na cadeira de couro, cruzou as mos e olhou-o fixo.
	Est certo. Ento, por que veio aqui?
	Quero ver sua filha, senador. Mas a empregada me disse que ela no est mais morando aqui. Gostaria que me desse o novo endereo de Andra.
Ray viera sem se anunciar e se identificara pelo interfone do porto. Gretchen deixara-o entrar depois que a convenceu de que era o caminhoneiro que passara aqueles dez dias com Andra. Agora teria de persuadir o senador a dizer-lhe onde ela estava.
	Gretchen o informou corretamente. Andra no vive mais aqui.
	Eu esperava que o senhor pudesse me informar onde poderia encontr-la.
Ray sentiu o pulso acelerar. Se o senador no lhe desse a informao de que precisava, no saberia o que fazer. No tinha outro modo de localizar Andra.
	O senhor est sem sorte senhor... Armstrong. No sei onde ela est.
	O senhor no sabe onde sua filha est?!
Uma expresso que Ray no conseguiu identificar surgiu no rosto do senador. No saberia dizer se era de dor, de raiva ou de tristeza, pois, do modo como surgiu, desapareceu depressa.
	Andra no  mais minha filha, desde que saiu desta casa.  Ficou de p.  Se foi por isso que veio aqui...
	Espere um minuto.  Ray tambm se levantou. Como iria encontrar Andra? A frustrao que tomou conta dele foi dirigida  nica pessoa que estava prxima: William Conroy.
 No  Andra que no sabe ser uma boa filha.  o senhor que no sabe ser um bom pai. Se ela foi embora, a culpa  sua.
O senador ficou com o rosto vermelho.
	Jovem, no sei o que sabe a respeito de minha famlia...
	Sei mais do que o senhor, pelo visto. Se amasse Andra, a aceitaria como  e pararia de tentar faz-la ser outra pessoa. Andra passou a vida tentando agrad-lo para ser amada. Anulou-se, mas nunca conseguiu sentir-se aceita. At que percebeu que assumir um casamento indesejvel estava acima de suas foras.
Ray virou-se e foi at a porta, desesperado e sentindo-se derrotado. Nunca iria encontrar Andra, e tudo por culpa daquele homem estpido e pretensioso. No podia suportar ficar nem mais um minuto na presena dele.
	Quem  voc para dizer-me como eu deveria amar minha filha?!  gritou o senador atrs dele.  Conhece-a h bem pouco tempo e acha que pode julgar e dar palpites?  muita presuno!
Ray se virou e o encarou. William Conroy ainda estava de p atrs da mesa, uma figura rgida e inflexvel na frente da biblioteca impessoal e solitria.
	Sou apenas algum que a ama. Quer o senhor goste, quer no. No tem nenhum poder sobre mim. E eu no tenho de agrad-lo.  Olhou para aquele homem poderoso durante um momento, virou-se, saiu e fechou a porta, sem fazer barulho.
Andra assustou-se com as batidas na porta do apartamento. Foi atender e olhou pelo olho mgico. William Conroy estava parado do outro lado.
Surpresa, girou a maaneta.
	Pai!  No sabia o que dizer. No o vira mais desde o dia em que sara de casa.
	Ol, Andra.  William parecia diferente, com um ar de vencido, subjugado. Vestia-se como de costume, de terno escuro, mas no tinha a expresso usual.  Posso entrar?
	Oh, desculpe-me! E claro que pode.
Andra se afastou, dando-lhe passagem. William passou por ela e foi at a pequena sala de visitas. Parou, mas continuou de p, parecendo ansioso e um pouco inseguro.
Andra nunca vira o pai portar-se dessa maneira. Ele era sempre to dono da situao... Todas as pessoas se curvavam a ele, obedecendo a suas ordens e aceitando suas decises.
	Como voc est?  o senador perguntou, meio sem graa.
	Bem.  Andra se sentia intrigada com a visita do pai.
	Sua me me disse onde eu poderia encontr-la.  Fez um gesto mostrando o ambiente.   um lugar agradvel. Pequeno, mas muito simptico.
	Obrigada.
William comeou a andar pelo aposento, olhando os quadros.
	Sei que est trabalhando e frequentando aulas na faculdade.
Como no havia muito o que observar, o tour pela sala terminou logo. Ento, William enfiou as mos nos bolsos da cala e olhou para a filha.
	 verdade. Andra encarou o pai com determinao, preparando-se para enfrent-lo.
Agora que tomara a deciso de sair de casa, no iria voltar atrs.
	Quero ajud-la, Andra. Deixe-me pagar suas aulas. Voc no precisa trabalhar. E minha nica filha. Deixe-me fazer isso.  Tirou o talo de cheque do bolso interno do palet.
Andra ficou admirada de seu pai querer auxili-la em vez de tentar fazer com que voltasse para casa e aceitasse suas determinaes.
	No, papai.  Meneou a cabea.  Agradeo sua oferta, mas preciso fazer isso do meu jeito. Tenho de provar a mim mesma que sou capaz de dirigir minha vida.
	Mas como pode trabalhar e estudar ao mesmo tempo? Deixe-me ajud-la  repetiu.
William sentou-se no sof, apoiou o talo na mesinha de centro e comeou a preencher uma folha.
	Pai, no. J disse que preciso fazer isso do meu modo. No me ouviu?
William olhou para a filha, estendendo-lhe o cheque.
	A maioria das pessoas trabalha e estuda ao mesmo tempo, papai. Quando comear o outono e as aulas reiniciarem, s vou trabalhar meio perodo. Tenho algumas economias, e estarei bem. Pode acreditar, no se preocupe. Se eu precisar...
William ficou em silncio durante alguns minutos.
	Gostaria que voltasse para casa.  Ps a caneta e o talo no bolso, sem insistir mais, para surpresa da filha.
	No vou voltar, papai. Sempre quis viver sozinha e ser dona de meu nariz.
	Eu sei.  Suspirou, ficou de p e se moveu em direo de Andra.  Eu queria... bem... queria dizer-lhe...  Parecia muito aflito e parou de falar.
Andra ficou esperando que ele continuasse.
	Estou tentando dizer-lhe que sinto saudade de voc. O rosto de William parecia envelhecido pela dor que aparentava sentir.  E sinto falta de sua me, tambm. Ela no voltar para casa. No enquanto a situao entre ns dois permanecer do jeito que est.
	 por isso que est aqui? Quer que eu diga a mame que volte?  Andra sentiu-se frustrada.
	No. Sei que Lillian no far isso. Estou aqui para ver se consigo acertar as coisas entre ns dois. Porque voc  minha filha, porque...  Deu um profundo suspiro e continuou:  Porque no quero perd-la, no quero perder minha famlia. Eu te amo, Andra. Sei que sou um homem rgido, que no demonstra seus sentimentos, mas...
No mesmo momento, lgrimas comearam a escorrer pelas faces de Andra. Havia quanto tempo esperava ouvir essas palavras?
William ainda no havia terminado:
	Eu s quis o que melhor para voc, sempre. Talvez tenha conduzido as coisas da maneira errada.  Meneou a cabea.  Afastei-a de mim. E afastei Lillian tambm. No era isso o que eu queria. Nunca pretendi que as coisas terminassem dessa maneira. E, h alguns dias, algum teve a coragem de me dizer isso, de me falar que amar  aceitar as pessoas como so. Amar voc  aceit-la como . Seria demais pedir que me perdoasse, Andra?
	No, no  demais, papai  sussurrou, enquanto o pranto continuava a descer por seu rosto.  Esperei toda a vida por isso, e sempre tentei agrad-lo.
William chegou perto da filha, que se aninhou em seus braos, como havia muito tempo no fazia. Na realidade, nem se lembrava de alguma vez t-lo feito. E quando se afastou para olhar para o senador, viu que os olhos do pai tambm estava marejados.
Nunca vira William chorar.
	Quero lhe dizer mais uma coisa.  William esfregou os olhos, um tanto embaraado pela demonstrao de emotividade.  Um jovem foi at nossa casa, alguns dias atrs.
Ray Armstrong.
Andra ficou alarmada. Um frio lhe percorreu a espinha, e sentiu uma sbita falta de ar.
	O que ele queria?
	Ver voc.
	E... o que o senhor disse a ele?  Seu corao disparou.
	Naquele dia eu no sabia onde voc morava. S obtive seu endereo ontem, quando fui procurar sua me.
	Ray... ele disse alguma coisa? Disse por que queria me ver?
William encarou-a.
	No. No disse por que queria v-la.  Pareceu que ia dizer mais alguma coisa, mas desistiu.
Andra ficou sentada no sof, durante muito tempo depois que o senador se foi, pensando na visita de Ray a seu pai. No tinha ideia do motivo de Ray querer v-la. Talvez desejasse apenas se certificar de que estava bem. Afinal de contas, passaram dez longos dias juntos, e de certa forma ele se sentira responsvel por ela e por sua segurana. Talvez quisesse o dinheiro que Andra prometera quando lhe dera os brincos de brilhantes como garantia das despesas que lhe desse.
Ray no lhe parecera uma pessoa ambiciosa, e se preocupara com o seu bem-estar. Apesar de no am-la, podia estar preocupado com ela. Era um homem bom, de bons sentimentos e esprito de solidariedade. Faria o mesmo por qualquer pessoa.
Alm do mais, no desistira de esperar ser amada havia muito tempo?
Mas de uma coisa tinha certeza: Ray no iria encontr-la sozinho. A no ser que procurasse William de novo, o que era quase impossvel.
Como ia viver sozinha, seu telefone no constava da lista, por medida de segurana. Alm da casa do pai, Ray no teria outro ponto de referncia para localiz-la.
O prximo passo teria de ser dela. Se tivesse coragem para tanto.

CAPITULO XII

	Ray, h algum aqui que quer v-lo. Ray levantou a cabea dos papis que examinava, no escritrio da Companhia Independente de Caminhes Armstrong, e perguntou  secretria:
	Quem , Debbie?
	Ela pediu para dizer que  Andra. Apenas Andra.  Debbie ergueu os ombros.  Afirmou que voc sabe quem .
Com o pulso acelerado, Ray olhou, admirado, para a secretria.
Andra? Andra estava ali?!
Desde o dia em que a procurara na casa dos pais e soubera que tinha ido embora, seus pensamentos iam de um extremo a outro, entre tentar se convencer de que deveria esquec-la e contratar um detetive particular para encontr-la. Sentia que a primeira hiptese estava se tornando impossvel e que a segunda era mais vivel.
E agora, ela estava ali.
	O que quer que eu faa, Ray?
	Diga-lhe para entrar.  Ray se recobrou da surpresa, juntou os papis que estavam espalhados e tentou dominar as batidas aceleradas do corao, respirando fundo.
A porta se abriu de novo, e Andra apareceu.
Ray olhou para ela como se fosse um homem perdido num deserto, morrendo de sede e avistando um osis mais adiante.
Andra estava linda, como sempre, num vestido de vero com estampa de flores, os cabelos escuros e cacheados soltos, e um suave sorriso que fez seus joelhos bambearem.
Mas havia alguma coisa diferente nela, percebeu enquanto Andra caminhava pela sala em sua direo. O olhar perdido se fora, substitudo por uma expresso de confiana. Ela parecia muito bem.
Ray levantou-se.
	Andra!  No sabia o que dizer.
Tivera tanto medo de no mais tornar a v-la, de que ela desaparecesse de sua vida para sempre. E agora, Andra estava de volta.
Mas... por quanto tempo?
	Ol!  ela respondeu com simplicidade, se aproximando e exalando a suave fragrncia de seu corpo.
	Sente-se.  Ray apontou para uma cadeira.
Andra se acomodou, e Ray fez o mesmo.
	 muito bom v-la.
	E bom ver voc tambm. Como tem passado?
	Estou bem.
A conversa no flua, e Ray temia que logo estariam falando sobre o tempo e outras amenidades. S de olhar para ela seu peito doa.
	Como vai voc?
	Bem.  Andra fez uma pausa e continuou:  Aluguei um apartamento e arrumei um emprego. Reiniciarei a faculdade de arte no outono e vou comear a lecionar.
Ray podia ver o orgulho nos olhos dela quando falava do futuro. Ele tambm se sentia orgulhoso dela, pela parte, ainda que pequena, que desempenhara na deciso que Andra tomara de assumir seu destino e fazer o que queria.
	E como seu pai encarou tudo isso?
	No incio, no muito bem.  Suspirou,  Mudei no dia em que voltei, e at ontem no nos falvamos. Mame lhe deu meu endereo, e ontem foi me ver. Est comeando a mudar. Enfim, me aceitou do jeito que eu sou.
Ray lembrou-se da visita que fizera ao senador e da impresso que tivera sobre aquele homem presunoso e impassvel. Afinal de contas, ele provara ser humano.
	Papai me disse que voc foi at nossa casa para me ver.
	Sim.  Ray agradeceu ao senador, em pensamento.
Lembrou-se de que falara a William sobre seus sentimentos e como reprovara a maneira como se conduzira como pai. Teria ele contado sobre sua visita, desaprovando-a? Ou o homem mudara mesmo de comportamento e comeava a olhar a vida sob outro prisma, de um modo mais humano?
E o qu, Ray perguntava a si mesmo, Andra pensava a respeito? At agora, no tinha certeza de nada.
Ficou imaginando se o senador contara  filha tudo o que lhe dissera naquele dia. Teria dito isso a ela que a amava?
	O que seu pai lhe falou a respeito da minha visita?
	Nada.  Andra parecia confusa.  Apenas que voc tinha ido me ver.
Ray no sabia se estava desapontado ou aliviado.
	Eu no sei por que voc foi me procurar, Ray. Mas lembro-me de que fizemos um acordo, quando lhe dei meus brincos como garantia pelas minhas despesas, e no tenho certeza de quanto lhe devo.  Pegou um talo de cheques da bolsa.  Se voc me disser...
	Lembro-me de que lhe disse, desde o incio de nossa viagem, que no iria pegar seu dinheiro. Isso no mudou.
	Foi isso mesmo o que eu pensei.  Andra guardou o talo.  Eu... apenas...  Suas palavras no saam.
	Voc deve querer seus brincos de volta.  Ray comeava a se desesperar. Fora esse o motivo de ela ir procur-lo?
Pegou um molho de chaves e abriu a gaveta lateral superior da mesa, de onde tirou uma pequena caixa.  Aqui esto.
Foi por isso que me procurou?Andra levantou a tampa.
Ray queria mentir, mas a verdade era que poderia devolver os brincos em qualquer ocasio, ou t-los enviado pelo correio.
Queria devolv-los pessoalmente, para v-la. Planejara us-los como desculpa e se, na ocasio, percebesse que Andra no nutria os mesmos sentimentos que ele, no faria papel de bobo.
Reconheceu que seu plano era covarde. Sherry  que estava certa. Se no confessasse seu amor por Andra, iria se arrepender peio resto de sua vida.
	No foi por isso que quis v-la.
	Ento, por que foi me procurar?  Ps a caixa com os brincos na bolsa e olhou para Ray esperando uma resposta, com ansiedade.
Ray observou que os lbios de Andra tremiam de leve. Estaria ela to nervosa quanto ele?
Levantou-se e deu a volta na mesa. Estendeu a mo para Andra, que, apesar da expresso de surpresa, tambm levantou-se.
	Fui v-la, Andra, porque estava com saudade. Nunca deveria t-la deixado ir embora. No era o que eu queria, por isso agi como um idiota. Tenho estado muito infeliz desde ento.
Andra entreabriu a boca, e Ray continuou a falar:
	Menti quando lhe disse que no tnhamos futuro, que nosso relacionamento no nos levaria a lugar algum, que nada era alm de atrao fsica. Menti mais ainda quando disse que nunca mais iria quer um envolvimento mais profundo.
	Voc mentiu?  Andra parecia ofegante e excitada.
O corao de Ray encheu-se de esperana.
	Sim.  Pensara que nunca mais correria esse tipo de risco e estava surpreso em verificar como se sentia bem.
 Estou apaixonado por voc, Andra. No queria estar, lutei contra isso, mas perdi a batalha. Amo voc, do fundo da alma.
	Eu tambm, Ray  admitiu, com suavidade, os grandes olhos brilhando.
Ray a estreitou em seus braos, incapaz de resistir por mais um segundo. Apertou-a contra o trax largo e forte, e os dois ficaram assim, juntinhos, durante alguns instantes. No havia necessidade de mais nenhuma palavra. J tinham dito tudo.
Depois, se beijaram at ficarem sem ar. O desejo comeou a tomar conta de seus sentidos.
Eu te amo muito  Andra sussurrou.  Tambm no queria deix-lo. Tive medo.
Ray se afastou um pouco e tirou uma mecha de cabelos daquele rosto to lindo e to querido.
	Medo de qu?
	De que voc no me quisesse, Ray. No pretendia ser magoada de novo.
Ray assentiu com a cabea. Entendia muito bem o que ela dizia.
	Eu sei, querida. Tambm me sentia do mesmo modo. Somos dois idiotas, no somos?
	Sim, sem dvida.
	Jamais magoarei voc  Ray prometeu.
Andra olhou para ele com os olhos midos. Confiava nele. Era nela prpria que no confiara durante todos aqueles anos. Mas tivera a coragem de vir v-lo por causa do amor, porque seu sentimento por Ray era maior do que o pavor que sentia. E percebia agora que esse amor seria sempre assim, com fora suficiente para enfrentar qualquer dificuldade e qualquer obstculo.
Sorriu entre as lgrimas. De repente, tudo ficara maravilhoso. Seu pai a tinha aceitado, sua me o perdoara e voltara para casa, e agora isso. Esse presente de Deus. Ray a amava. Sua vida era perfeita!
	Voc est chorando!  Ray passou os polegares pelas faces dela.
	Dessa vez, de felicidade.
	Estou contente. Que voc esteja feliz, no que esteja chorando.  Ficou srio.  Mas h mais alguma coisa sobre a qual precisamos conversar.
	O qu?  ela perguntou, preocupada.
Ray pegou-lhe a mo e a guiou para fora do escritrio.
	Venha, Andra. Preciso lhe mostrar uma coisa.
Na pequena sala de espera, Debbie estava sentada a uma mesa, conversando com Zach.
	Ol  Zach os saudou.
	Zach, esta  Andra. Andra, este  meu irmo.  E Ray continuou a andar, levando Andra em direo s portas de vidro.
Zach arregalou os olhos e abriu a boca.
	Ei, vocs, esperem!
	Ns nos veremos mais tarde, Zach.  Ray abriu as portas para que Andra passasse e acenou para o irmo.
	Aonde vamos?
	Voc vai ver.  Ray a fez entrar no caminho.
Percorreram algumas ruas de Silver Spring at um bairro residencial, cerca de cinco minutos de distncia. As ruas, iluminadas pelo sol da tarde, estavam repletas de crianas que aproveitavam para brincar, nos ltimos dias das frias de vero.
Ray parou na frente de uma casa em estilo rstico. Era de tijolinhos aparentes, de dois andares, com uma varanda na frente e dois lindos e antigos carvalhos que faziam sombra no quintal bem cuidado.
Depois de abrir a porta do veculo para Andra, Ray lhe deu a mo para ajud-la a descer e a guiou em direo da residncia. Parou no meio do caminho, e Andra olhou para a construo.
	 aqui que voc mora?
Ray assentiu com a cabea.
	Eu lhe falei que no era uma casa tpica de um solteiro.
Nesse momento, uma bola de futebol caiu no jardim, e um menino veio correndo, atravessando o gramado do jardim. Ray pegou a bola e a jogou para o garoto.
	Obrigado, Ray!  O menino agarrou o brinquedo e correu de volta para brincar com os amigos.
Andra olhou para Ray e viu que seu olhar era melanclico. Aquilo mexeu com seu corao. Os olhares dos dois se encontraram.
	Quero passar o resto da vida com voc, Andra. Quero que tenhamos filhos. E quero... uma famlia.
	Eu tambm.
Mas por qu, ela pensou preocupada, ele parecia to solene?
	Estou querendo dizer... nesta casa  Ray continuou. Sei que no  com isso que est acostumada...
	Ray, sua casa  linda!  Andra entendeu o que havia de errado na expresso deie. Queria esclarecer logo esse assunto.  No quero criar nossos filhos num lar igual quele onde cresci. Quero um lar cheio de calor, felicidade e amor.  a isso que dou importncia.
	Tem certeza?  Ray insistiu.  Entende que, por mais sucesso que minha firma venha a ter um dia, nunca terei o dinheiro que...
	Sim, tenho certeza. No preciso de dinheiro para ser feliz.  Apertou a mo de Ray.  Preciso de voc.
Ray a olhou durante alguns segundos, passou o brao em torno da cintura dela e a puxou para mais perto.
	Amo voc, como nunca pensei pudesse ser capaz.
	Eu sei.  Andra sorriu, orgulhosa.  Mas espere um minuto. Pediu-me para casar com voc?
Ray juntou as sobrancelhas como se estivesse fazendo um esforo para lembrar.
	Acho que sim. Voc aceitou?
	No sei. Estar tudo bem com Rex? Ele me aceitar?
	Imagino que no haver problema quanto a isso.
	Ento, minha resposta  sim!
Beijaram-se com paixo, ambos conscientes da incrvel fora que esse sentimento traria para suas vidas. S quando pararam parar recuperar o flego  que perceberam que as crianas que brincavam perto do jardim haviam parado para observar seu beijo apaixonado.
E todos riram, muito felizes.

FIM
